25 anos do 11/9: historiador relembra sobrevivência no Pentágono

Mark Jacobson, analista da Marinha dos EUA, relembra o ataque de 2001 e avalia a segurança atual

Por Marcos Guimarães9 set 2026
25 anos do 11/9: historiador relembra sobrevivência no Pentágono

O que aconteceu

O historiador Mark Jacobson, que serviu como oficial de inteligência da Marinha dos EUA e hoje atua no International Spy Museum, relembrou em entrevista à Bloomberg sua experiência de sobreviver ao ataque de 11 de setembro de 2001 dentro do Pentágono. Jacobson estava próximo ao ponto de impacto do voo 77 da American Airlines, que colidiu com o prédio às 9h37 da manhã daquele dia.

A entrevista foi publicada em 9 de setembro de 2026, exatamente 25 anos após os ataques que mataram 2.977 pessoas nos Estados Unidos. Jacobson relatou as dificuldades para entrar em contato com a família e confirmar que havia sobrevivido, em meio ao caos das comunicações que se seguiram ao impacto.

O atentado ao Pentágono, executado por cinco terroristas da Al-Qaeda, deixou 184 mortos no prédio e 64 ocupantes do avião. Jacobson, que trabalhava na área atingida, escapou sem ferimentos graves, mas testemunhou a destruição de parte da estrutura do edifício símbolo do poder militar americano.

Contexto

Os ataques de 11 de setembro de 2001 foram uma resposta direta à presença militar americana no Oriente Médio e à política externa dos EUA no mundo islâmico. O Pentágono foi o terceiro alvo atingido naquele dia, depois das Torres Gêmeas do World Trade Center em Nova York, e antes do voo 93, que caiu na Pensilvânia após passageiros confrontarem os sequestradores.

Marcaram a maior tragédia em solo americano desde o ataque a Pearl Harbor, em 1941, e transformaram radicalmente as políticas de segurança do país. O governo de George W. Bush respondeu com a criação do Departamento de Segurança Interna (Department of Homeland Security) em novembro de 2002, da Diretoria de Inteligência Nacional em 2004 e com a aprovação do USA PATRIOT Act em outubro de 2001, que ampliou poderes de vigilância do Estado.

Jacobson testemunhou essa evolução de dentro do sistema de inteligência americano. Como oficial da Marinha, ele participou das operações que se seguiram aos ataques, incluindo a invasão do Afeganistão em outubro de 2001 e a do Iraque em março de 2003.

Por que importa

Passadas duas décadas e meia, a avaliação de Jacobson traz um contraponto ao discurso oficial de que os EUA venceram a guerra ao terror. O historiador reconhece que o país está mais seguro do que estava em 2001, quando a Al-Qaeda operava campos de treinamento no Afeganistão e planejava ataques em solo americano com liberdade.

A estrutura de inteligência criada após o 11 de setembro permitiu desmantelar a rede que executou os ataques. Osama bin Laden foi morto em 2011 em uma operação das forças especiais americanas no Paquistão. Ayman al-Zawahiri, seu sucessor na liderança da Al-Qaeda, foi eliminado em um drone strike em Cabul em julho de 2022.

Mas o alerta de Jacobson sobre a desvalorização de aliados reflete uma preocupação real nos círculos de segurança: a erosão das alianças tradicionais dos EUA, especialmente no contexto da retirada caótica do Afeganistão em 2021 e da postura cambaleante dos EUA no cenário diplomático global sob diferentes administrações.

Para o Brasil, a análise de Jacobson tem dupla relevância. Primeiro, porque o 11 de setembro redefiniu a segurança da aviação civil mundial, impactando diretamente as operações aeroportuárias brasileiras e os procedimentos de embarque. Segundo, porque a desvalorização das alianças internacionais pelo governo americano abre espaço para novas potências, situação que afeta a política externa brasileira e o equilíbrio regional.

Impacto

A evolução do contraterrorismo nas últimas 25 anos envolveu mudanças estruturais profundas nos EUA. O National Counterterrorism Center (NCTC), criado em 2004, passou a centralizar a análise de ameaças terroristas globais. A NSA, Agência de Segurança Nacional americana, massificou programas de coleta de metadados, alguns revelados por Edward Snowden em 2013 e posteriormente restringidos por decisões judiciais.

O orçamento de segurança nacional americano saltou de cerca de US$ 350 bilhões em 2001 para mais de US$ 800 bilhões anuais na década de 2010, com parte expressiva destinada ao combate ao terrorismo. O Pentágono, que hoje seduziu Jacobson, foi reconstruído: a área atingida pelo voo 77 deu lugar ao Memorial do Pentágono, inaugurado em 2008, com 184 bancos de aço inoxidável.

O cenário de ameaça, porém, se transformou. A Al-Qaeda, que era uma organização centralizada, deu lugar a grupos afiliados na Síria, Iêmen, Somália e África Ocidental. O ISIS, que emergiu em 2014 do vácuo deixado pela guerra do Iraque, controlou territórios na Síria e no Iraque até ser derrotado militarmente em 2019, mas sua ideologia permanece ativa.

Jacobson aponta que a segurança coletiva não pode ser medida apenas por indicadores de ataques frustrados nos EUA. A ameaça se deslocou para as franquias locais do jihadismo na África e na Ásia, e para a radicalização de indivíduos por meio da internet.

O que muda

Na visão do historiador, a principal mudança de paradigma é a constatação de que o terrorismo não se combate apenas com força militar. A desvalorização dos aliados enfraquece redes de inteligência compartilhada que foram fundamentais para desmantelar complôs como o atentado a bomba no avião da Northwest Airlines em dezembro de 2009, interceptado por agentes nigerianos com treinamento britânico.

Os EUA precisam reconhecer que sua segurança está intrinsicamente ligada à estabilidade de parceiros como o Reino Unido, a Austrália, o Canadá e mesmo de aliados não tradicionais da OTAN no Oriente Médio. No ano do 25º aniversário do 11/9, essa mensagem ganha peso mais do que simbólico.

O que vem agora

As solenidades de 11 de setembro de 2026 marcarão 25 anos exatos dos ataques. Jacobson, como historiador do International Spy Museum, instituição dedicada a preservar a memória da espionagem e da inteligência, participará de eventos de comemoração e reflexão, incluindo cerimônias no Memorial do Pentágono.

O International Spy Museum, que abriga exposições sobre a história da inteligência americana e mundial, planeja incluir no seu acervo reflexões sobre o impacto de longo prazo do 11/9 nas práticas de inteligência. Jacobson, que contribui para essas exposições, aponta que a eficácia do aparato de segurança do futuro dependerá da manutenção das redes de cooperação internacional, exatamente o elo que ele vê hoje ameaçado.