África do Sul eleva preço de referência do açúcar para proteger produtores
Medida altera base de cálculo de tarifas sobre importação do produto
O que aconteceu
O governo da África do Sul decidiu aumentar o preço de referência do açúcar, índice que serve de base para o cálculo das tarifas de importação do produto. A informação foi divulgada em 27 de agosto de 2026 pela Bloomberg, citando pessoas familiarizadas com o assunto. O reajuste era uma reivindicação histórica dos produtores domésticos, especialmente da unidade local da Associated British Foods Plc, que opera no país por meio da Illovo Sugar. A medida busca reduzir a entrada de açúcar estrangeiro vendido a preços mais baixos, que tem pressionado a indústria sul-africana.
O mecanismo funciona assim: quanto maior o preço de referência, maior tende a ser a tarifa aplicada sobre o açúcar importado, encarecendo o produto externo e dando fôlego à produção nacional. Não foram divulgados valores exatos do novo patamar nem a data de entrada em vigor, mas a decisão já está tomada, segundo as fontes.
Contexto
A África do Sul é um dos maiores produtores de açúcar do continente africano, mas o setor vem perdendo espaço para importações mais baratas, sobretudo de países como o Brasil e da África Austral. A indústria local, concentrada na província de KwaZulu-Natal, emprega dezenas de milhares de trabalhadores diretos e indiretos, e a pressão das importações já provocou fechamento de usinas e demissões nos últimos anos. A Associated British Foods Plc, conglomerado britânico dono da Illovo Sugar, controla a maior parte da produção no país. A empresa vinha cobrando do governo uma revisão do benchmark para compensar a disparidade de custos com concorrentes externos, que se beneficiam de subsídios e mão de obra mais barata.
O debate sobre proteção ao açúcar local não é novo. Em 2023, o governo sul-africano já havia ajustado temporariamente as tarifas, mas o setor argumentava que o mecanismo seguia insuficiente. A decisão de agora representa uma vitória para os produtores, que vinham alertando para o risco de colapso da cadeia produtiva caso a competição desleal não fosse contida.
Por que importa
Para os consumidores sul-africanos, o impacto mais imediato deve ser o preço do açúcar no varejo, que tende a subir com a majoração das tarifas de importação. Para os produtores locais, a medida significa maior competitividade em um mercado que vinha sendo invadido por açúcar estrangeiro mais barato. A Associated British Foods Plc, por sua vez, ganha fôlego para manter suas operações na África do Sul, onde a Illovo Sugar é a maior empregadora do setor. O reajuste também protege os pequenos agricultores que fornecem cana para as usinas, evitando que sejam forçados a abandonar a atividade.
No plano econômico, a decisão reforça uma tendência protecionista que já se observa em outros países africanos. A indústria de açúcar sul-africana é estratégica para o agronegócio local e para a balança comercial, e a medida pode ajudar a reduzir o déficit no setor, que hoje importa mais do que exporta.
Impacto
No curto prazo, a alta do preço de referência deve desacelerar as importações de açúcar, principalmente daqueles fornecedores que vinham praticando preços predatórios. Nos próximos meses, a expectativa é de que as usinas locais aumentem a moagem e possam até planejar novos investimentos, como havia sido adiado por causa da crise de competitividade. Para os consumidores, o açúcar deve ficar mais caro, em um momento em que a inflação de alimentos já é uma preocupação no país. A medida também pode gerar atrito com os vizinhos da África Austral, que usam o mercado sul-africano como destino de suas exportações de açúcar.
Em médio prazo, o setor espera que a proteção reforce a sustentabilidade da cadeia, permitindo que os produtores remunerem melhor os canavicultores e mantenham empregos. A Illovo Sugar já anunciou em 2025 um plano de reestruturação que previa corte de custos, e essa decisão tarifária pode evitar novas demissões.
O que muda
O principal efeito prático é o encarecimento do açúcar importado, que passa a competir em condições menos desiguais com o produto local. A indústria doméstica, que hoje opera com margens apertadas, ganha espaço para recuperar participação no mercado interno. Para as trading companies que importam açúcar para a África do Sul, o custo de operação aumenta, e parte delas pode redirecionar vendas para outros mercados da região. Já os consumidores de baixa renda, que dependem do açúcar como item básico da alimentação, sentirão o impacto no orçamento doméstico.
O que vem agora
O governo sul-africano deve publicar nos próximos dias o novo valor do preço de referência no diário oficial, junto com a metodologia de cálculo. A medida precisa ser avaliada pela Organização Mundial do Comércio (OMC), já que a África do Sul é signatária de acordos que limitam tarifas de importação. Caso haja contestação, o país pode precisar justificar a medida como salvaguarda contra práticas desleais. Produtores locais, incluindo a Associated British Foods Plc, devem pressionar para que o novo benchmark seja mantido ao longo das próximas safras, evitando mudanças bruscas que desestabilizem o planejamento das usinas.
