Argentinos seguem comprando dólares mesmo com moeda estável

Compra de moeda americana retoma patamar de 2025 apesar da estabilidade do peso, diz Bloomberg

Por Marcos Guimarães9 set 2026
Argentinos seguem comprando dólares mesmo com moeda estável

O que aconteceu

Em setembro de 2026, dados coletados pela Bloomberg mostram que a procura por dólares entre os argentinos voltou aos patamares vistos na turbulência dos mercados em 2025. A informação foi divulgada em relatório publicado no dia 9 de setembro. A guerra no Irã, que elevou a aversão ao risco global, paradoxalmente ajudou o governo de Javier Milei a preservar a cotação do peso. Mesmo assim, os argentinos continuam comprando dólares com intensidade semelhante à das crises anteriores.

O relatório da Bloomberg aponta que a estabilidade cambial não foi capaz de conter a corrida pela moeda estrangeira. A guerra no Irã ajudou o presidente Javier Milei, pois reduziu a pressão especulativa sobre o peso em um cenário de incerteza global. Ainda assim, a demanda por dólares voltou ao nível de 2025, quando uma queda geral dos mercados provocou pânico entre investidores locais.

Contexto

Desde que assumiu o cargo em dezembro de 2023, Javier Milei implementou um programa de ajuste fiscal e liberalização econômica para conter uma inflação anual que chegou a três dígitos. O plano reduziu o ritmo de alta de preços e permitiu certa apreciação do peso, mas a confiança da população não foi totalmente restaurada. A Argentina atravessa décadas de desvalorizações e confiscos de depósitos, o que tornou o dólar o principal refúgio para poupanças.

No ano passado, uma queda nos mercados internacionais, ligada a temores de recessão nos Estados Unidos, fez disparar a compra de dólares. Agora, em 2026, sem um estímulo doméstico direto, a procura voltou àquele mesmo volume. O governo Milei tentou incentivar o uso do peso com medidas como a redução de impostos para transações em moeda local, mas os dados indicam que o comportamento defensivo dos argentinos persiste.

Por que importa

A persistência na compra de dólares sinaliza que a política econômica de Javier Milei ainda não conquistou a confiança de longo prazo da população. Para o Brasil, vizinho e principal parceiro comercial no Mercosul, a situação argentina é relevante: a desvalorização do peso ou o esgotamento das reservas pode afetar as exportações brasileiras e a integração regional.

Investidores estrangeiros observam a Argentina com cautela. A volta da demanda por dólares ao nível de crise indica que a estabilidade atual pode ser frágil e depender mais de fatores externos, como o conflito no Irã, do que de fundamentos domésticos sólidos. Empresas brasileiras com operações no país enfrentam maior risco cambial e dificuldade em remeter lucros.

Impacto

O Banco Central da Argentina precisa intervir no mercado vendendo reservas internacionais para evitar uma disparada no câmbio paralelo. Essa intervenção reduz o colchão de proteção do país, hoje estimado em cerca de US$ 25 bilhões, segundo dados públicos. Quanto mais dólares os argentinos compram, menor a capacidade do governo de honrar dívidas externas nos próximos anos.

O impacto imediato deve ser um aperto adicional na política monetária, com juros altos para atrair poupança em peso. Para o comércio regional, a desvalorização do peso argentino torna os produtos brasileiros menos competitivos no mercado vizinho. No médio prazo, a continuidade da fuga para o dólar pode levar a novos controles cambiais, como os aplicados nas gestões anteriores.

O que muda

A percepção de que a estabilidade do peso está calcada em um fator externo, a guerra no Irã, e não na confiança no plano econômico, muda a avaliação de risco do país. Javier Milei prometeu dolarizar a economia, mas abandonou a ideia nos primeiros meses de governo por falta de reservas. Agora, a demanda privada por dólares pressiona o Banco Central e pode forçar uma aceleração nas reformas estruturais.

Os argentinos, por sua vez, mostram que não se deixam convencer apenas pela queda da inflação. A compra de dólares é uma proteção clássica contra a instabilidade histórica, e a memória do calote de 2001 e dos controles de 2011 ainda influencia o comportamento financeiro. O governo precisa provar que a estabilidade veio para ficar, algo que até agora não conseguiu.

O que vem agora

Analistas de mercado acompanham os desdobramentos da guerra no Irã e seus efeitos sobre o preço do petróleo e o humor global. Uma escalada do conflito pode manter o peso artificialmente estável, mas também eleva o risco de recessão mundial, o que afetaria as exportações argentinas de commodities agrícolas.

Nos próximos meses, devem ser anunciados novos ajustes na política de câmbio do governo Javier Milei. O Banco Central argentino pode endurecer as regras para compra de dólares ou elevar os juros para desestimular a fuga. No entanto, a lição do relatório da Bloomberg é clara: enquanto a confiança não for ancorada em reformas sólidas e previsíveis, os argentinos continuam apostando no dólar como única certeza.