Departamento de Justiça dos EUA diz que norte-coreanos infiltraram dezenas de empresas

Investigação aponta ao menos 70 empresas americanas infiltradas e US$ 3 milhões desviados com identidades roubadas de cidadãos dos EUA

Por Marcos Guimarães14 out 2026
Departamento de Justiça dos EUA diz que norte-coreanos infiltraram dezenas de empresas

O que aconteceu

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ, na sigla em inglês) revelou nesta terça-feira uma operação que expôs como hackers a serviço da Coreia do Norte estão usando americanos como facilitadores para invadir empresas no país. Segundo os promotores, ao menos duas pessoas foram indiciadas e presas, e buscas foram conduzidas em dezenas de suspeitas "fazendas de laptops" no Texas.

No total, as autoridades federais apreenderam mais de 180 computadores que, segundo o DOJ, empresas americanas haviam enviado a funcionários recém-contratados. Os equipamentos foram remetidos sem que as companhias soubessem que os supostos empregados eram espiões norte-coreanos sancionados, que usaram identidades roubadas de cidadãos dos EUA para conseguir os empregos.

A operação no Texas atingiu mais de 40 fazendas de laptops, o maior número já divulgado de residências usadas para viabilizar ataques norte-coreanos. Esses imóveis eram controlados por pelo menos dois facilitadores americanos, de acordo com o DOJ.

Os promotores afirmaram que ao menos 70 empresas sediadas nos Estados Unidos foram infiltradas pelos hackers. Os valores desviados somam cerca de US$ 3 milhões. O DOJ não divulgou os nomes das companhias atingidas, mas descreveu os setores como saúde, suporte cibernético, varejo, comunicações e manufatura, distribuídos por Ohio e outros 16 estados, além do Distrito de Columbia.

A CrowdStrike, empresa de segurança que ajudou o FBI na investigação e na contenção das operações mais recentes, afirmou que as fazendas de laptops são "vitais" para a Coreia do Norte, pois permitem aos hackers superar barreiras físicas, financeiras e legais de não estar presentes fisicamente nos Estados Unidos.

Em comunicado, o Departamento de Justiça declarou: "Cada vez mais, os trabalhadores de TI norte-coreanos estão recorrendo à contratação de facilitadores americanos para driblar detecções aprimoradas do setor privado e ações de aplicação da lei. Esses trabalhadores estão contratando facilitadores para executar uma variedade maior de tarefas e, em alguns casos, subcontratando trabalhos inteiros para estrangeiros de terceiros países."

Contexto

O modus operandi dos hackers norte-coreanos combina identidades falsas e presença digital fabricada. Segundo o DOJ, eles costumam usar endereços de e-mail que parecem legítimos, perfis falsificados no LinkedIn e contas extensas em redes sociais para dar cobertura às atividades.

Em aviso público separado, o FBI afirmou que existem "milhares" de trabalhadores de TI controlados pelo Estado norte-coreano atuando em empresas ocidentais. Para a agência, esses profissionais representam "uma ameaça interna significativa à segurança nacional e ao roubo de propriedade intelectual".

A revelação desta terça-feira é a mais recente de uma série de prisões, indiciamentos e ações de fiscalização voltadas às atividades norte-coreanas nos Estados Unidos.

Por que importa

A dependência de facilitadores americanos representa uma mudança tática. Conforme as empresas privadas e as autoridades aprimoram seus mecanismos de detecção, os hackers norte-coreanos passam a delegar tarefas a cidadãos locais, o que dificulta a identificação e amplia o alcance das operações.

Para empresas de setores como saúde, manufatura e varejo, o risco é direto: ao contratar remotamente profissionais que se passam por americanos legítimos, a companhia pode entregar acesso a sistemas internos, dados sensíveis e propriedade intelectual a agentes de um governo estrangeiro sancionado. O prejuízo já documentado chega a US$ 3 milhões em fundos desviados, mas o impacto sobre dados corporativos não foi detalhado pelo DOJ.

Impacto

As fazendas de laptops funcionam como infraestrutura física essencial. Cada residência abriga vários computadores conectados à internet, que fazem parecer que o hacker está operando de dentro dos Estados Unidos, driblando sistemas que bloqueiam acessos vindos do exterior.

Com a apreensão de mais de 180 máquinas e a derrubada de mais de 40 instalações no Texas, a operação desarticula parte dessa estrutura. O caso também expõe a vulnerabilidade dos processos de contratação remota, que cresceram após a pandemia e continuam sendo um ponto cego para departamentos de recursos humanos e de segurança da informação.

O que muda

O DOJ não informou quais empresas foram afetadas nem se haverá novas prisões. O que a investigação deixa claro é que o modelo de facilitadores americanos se consolidou como estratégia central do regime norte-coreano, e que a resposta das autoridades agora combina indiciamentos criminais, apreensões físicas e alertas públicos do FBI.

As empresas dos setores citados, especialmente as que operam em Ohio e nos outros 16 estados mencionados, passam a ter motivos concretos para revisar processos de contratação remota, verificação de identidade de candidatos e monitoramento de dispositivos enviados a funcionários.

O que vem agora

O Departamento de Justiça afirmou que a investigação continua. A orientação implícita às empresas é endurecer a checagem de identidade em contratações remotas, incluindo verificação presencial e cruzamento de dados com bases federais. O FBI mantém o alerta sobre milhares de trabalhadores de TI ligados a Pyongyang já infiltrados no mercado ocidental, sem prazo para conclusão das apurações em curso.