Desaceleração da receita de IA seria o maior teste do mercado
Kelly Covley, da Manning & Napier Advisors, alerta para vulnerabilidade das ações se a demanda enfraquecer
O que aconteceu
Em entrevista à Bloomberg transmitida em 24 de agosto de 2026, a analista sênior de investimentos da Manning & Napier Advisors, Kelly Covley, disse que o mercado se tornou cada vez mais dependente do comércio de IA, deixando as ações mais vulneráveis se a demanda começar a enfraquecer. Covley destacou que os gastos com IA já estão se propagando por indústrias de toda a economia. "O maior teste seria se você tivesse uma desaceleração no crescimento da receita dos laboratórios de IA", afirmou a analista durante a conversa.
A declaração ecoa um momento em que os principais provedores de modelos de IA, como as empresas por trás do GPT, do Claude e de outras arquiteturas de grande escala, ainda sustentam valuations elevados. A análise de Covley aponta que a resiliência do mercado atual depende diretamente de esses laboratórios continuarem apresentando expansão de faturamento.
Contexto
Desde o lançamento do ChatGPT pela OpenAI em novembro de 2022, o setor de inteligência artificial passou por uma escalada de investimentos e reavaliação de empresas de tecnologia. A corrida por capacidade computacional, o aumento no consumo de APIs e a adoção corporativa de ferramentas generativas criaram um ciclo de receita que sustentou índices como o S&P 500 e o Nasdaq. Porém, esse mesmo ciclo tornou o mercado sensível a qualquer sinal de desaceleração, como covley lembra.
A própria Manning & Napier Advisors, gestora com sede em Rochester, Nova York, acompanha de perto os balanços das empresas de IA. Covley não citou nomes específicos, mas a referência a "laboratórios" indica empresas como OpenAI, Anthropic, Cohere e a xAI, entre outras que vendem acesso a modelos por meio de APIs.
Por que importa
Se a receita dos laboratórios de IA começar a desacelerar, o efeito não ficaria restrito às ações dessas empresas. O impacto se espalharia por setores que já dependem de serviços de IA, como nuvem, software empresarial, automação e até saúde e finanças. Para o investidor brasileiro, isso significa atenção aos ETFs e fundos globais expostos a tecnologia, além das ações de empresas locais que usam modelos de IA em seus produtos.
O alerta de Covley também questiona a sustentabilidade dos valuations atuais. Em 2025, o mercado já viu correções pontuais após balanços que frustraram expectativas de crescimento de receita em empresas de IA, como a queda de ações da própria OpenAI em abril daquele ano, quando a empresa reportou desaceleração no ritmo de assinaturas.
Impacto
A curto prazo, uma desaceleração na receita dos laboratórios levaria a uma reprecificação imediata das ações de tecnologia, com reflexos em fundos passivos e em carteiras com alta concentração no setor. A médio prazo, as empresas de todos os portes reduziriam o ritmo de adoção de IA se os custos não se traduzissem em retorno claro. Covley aponta que o teste não é se a IA vai evoluir, mas se o ritmo de monetização vai se manter.
Um exemplo concreto citado indiretamente na análise: assembleias de resultados de empresas de nuvem, que já reportam crescimento de receita impulsionado por demanda de IA. Se esses números desacelerarem, os provedores de infraestrutura também sentiriam, como a Amazon Web Services e a Microsoft Azure.
O que muda
Para os gestores, a mudança é estratégica. Em vez de apostar no crescimento exponencial contínuo, eles teriam de diversificar para ativos menos correlacionados à tese da IA. Para as empresas de tecnologia, o desafio seria provar que a receita de IA é recorrente e não apenas fruto de um ciclo de experimentação corporativa. A declaração de Covley também reforça que o mercado precisa de alternativas de crescimento fora do setor.
No Brasil, o efeito seria indireto, mas perceptível. Fundos multimercado com exposição internacional e ações de empresas como a própria OpenAI listada na B3, que fornece infraestrutura de IA, poderiam sofrer com a correção global. O mercado local já mostrou sensibilidade a movimentos externos nesse setor, como nas quedas de outubro de 2025.
O que vem agora
Os próximos meses serão decisivos. Os balanços do terceiro trimestre de 2026, que começam a ser divulgados em outubro, devem indicar se a receita dos laboratórios de IA continua crescendo no mesmo ritmo. Covley sugere que os investidores devem acompanhar de perto as orientações (guidance) das empresas sobre crescimento futuro. A entrevista completa está disponível no site da Bloomberg, publicada em 25 de agosto de 2026.
Não há projeção oficial de a queda da demanda acontecer. Mas o mercado já precifica o risco. A pergunta de Covley permanece: o que acontecerá quando a receita dos laboratórios não crescer mais?
