Dólar estável, mas emergentes brilham: o que diz Ed Al-Hussainy sobre o mercado de câmbio
Gestor da Columbia Threadneedle explica por que o dólar não sobe apesar dos dados fortes dos EUA, e aponta Brasil, México, Colômbia e África do Sul como destaque.
O que aconteceu
Em entrevista à Bloomberg, Ed Al-Hussainy, portfolio manager da Columbia Threadneedle Investments, afirmou que o dólar americano está surpreendentemente estável frente às moedas de mercados desenvolvidos, mesmo com a economia dos EUA mostrando força, com baixo desemprego e crescimento constante. Por outro lado, as moedas de mercados emergentes, como o real brasileiro, o peso mexicano, o peso colombiano e o rand sul-africano, estão se destacando, puxadas por carry trades que se beneficiam dos juros reais mais altos nesses países.
A declaração foi dada ao apresentador Romaine Bostick no programa "The Close", da Bloomberg, em 24 de agosto de 2026. Al-Hussainy, que é gestor de portfólio na Columbia Threadneedle Investments, destacou que o desempenho do dólar não reflete os fundamentos econômicos americanos, que seguem sólidos. A estabilidade do dólar, segundo ele, ocorre em parte porque o Federal Reserve (Fed) está reprecificando seus cortes de juros de forma mais lenta do que outros bancos centrais.
Contexto
O comportamento do dólar em 2026 tem sido tema de debate entre investidores. Historicamente, uma economia americana forte, com mercado de trabalho aquecido e crescimento estável, tenderia a valorizar a moeda americana. No entanto, o cenário atual mostra o dólar sem ganhos expressivos contra as principais moedas desenvolvidas, como euro, iene e libra. Isso ocorre porque o Fed, sob a presidência de Jerome Powell, adotou uma postura mais cautelosa em relação a cortes de juros, enquanto outros bancos centrais, como o Banco Central Europeu e o Banco do Japão, já sinalizaram ou implementaram reduções mais agressivas.
Enquanto isso, os mercados emergentes se tornaram o foco dos investidores em busca de rendimento. Países como Brasil, México, Colômbia e África do Sul mantêm taxas de juros reais elevadas, o que atrai capital estrangeiro para operações de carry trade, em que o investidor toma emprestado em moeda de juro baixo, como o iene ou o franco suíço, e aplica em ativos de moedas com juros altos. O real brasileiro, por exemplo, tem sido um dos principais beneficiados, com o Banco Central do Brasil mantendo a Selic em patamares elevados para controlar a inflação.
Por que importa
A análise de Al-Hussainy é relevante para investidores brasileiros e latino-americanos porque indica que o fluxo de capital para mercados emergentes deve continuar enquanto os juros reais locais permanecerem altos. Para o Brasil, isso significa que o real pode seguir valorizado, o que ajuda a conter a inflação importada, mas também pode prejudicar a competitividade das exportações. Para o México, a força do peso pode impactar a indústria manufatureira, que depende de custos competitivos.
Além disso, a estabilidade do dólar, apesar da força econômica americana, sugere que o mercado já precificou grande parte do cenário de juros nos EUA. Isso reduz o risco de uma reversão brusca que poderia desvalorizar moedas emergentes. O gestor da Columbia Threadneedle Investments, Ed Al-Hussainy, aponta que o diferencial de juros reais é o principal motor do carry trade, e enquanto esse diferencial persistir, as moedas emergentes tendem a se manter fortes.
Impacto
No curto prazo, a tendência é de que o dólar continue sem direção clara contra as moedas desenvolvidas, enquanto os emergentes seguem atraindo capital. Para o Brasil, o impacto é duplo: por um lado, a valorização do real reduz a pressão inflacionária e dá mais espaço para o Banco Central eventualmente cortar a Selic; por outro, exportadores de commodities, como soja e minério de ferro, veem sua receita em reais diminuir. Na Colômbia e na África do Sul, o mesmo fenômeno ocorre, com moedas locais fortes beneficiando importadores, mas prejudicando setores exportadores.
O mercado de títulos também é afetado. Com juros reais altos nos emergentes, os títulos locais se tornam atrativos para investidores globais, o que aumenta a demanda por papéis brasileiros, mexicanos e colombianos. Isso pode reduzir os spreads e os custos de financiamento desses países. No entanto, o risco de uma mudança súbita na política monetária americana, como um corte mais agressivo do Fed, poderia inverter o fluxo, como já ocorreu em ciclos anteriores.
O que muda
A leitura de Al-Hussainy, que é um investidor de renda fixa com vasta experiência em mercados globais, sugere que a estratégia de carry trade em emergentes deve continuar funcionando enquanto os bancos centrais locais mantiverem juros reais positivos. Isso muda a alocação de carteiras: fundos globais tendem a aumentar a exposição a moedas emergentes, especialmente em países com fundamentos fiscais razoáveis, como Brasil e México. Para o investidor brasileiro, isso pode significar mais liquidez e menor volatilidade no câmbio, mas também exige atenção às políticas internas, como o arcabouço fiscal, que pode afetar a percepção de risco.
Além disso, a fala de Ed Al-Hussainy, portfolio manager da Columbia Threadneedle Investments, reforça a visão de que o Fed não deve acelerar cortes de juros, o que mantém o dólar relativamente estável. Isso reduz o risco de uma crise cambial em emergentes, mas também limita o potencial de valorização adicional das moedas, já que o diferencial de juros pode se estreitar se os emergentes começarem a cortar suas taxas.
O que vem agora
Os próximos passos dependem das decisões dos bancos centrais. No Brasil, o Copom deve manter a Selic em nível elevado até que a inflação convirja para a meta, o que sustenta o carry trade. No México, o Banco do México também deve manter juros altos, apesar da pressão política. Na Colômbia e na África do Sul, a trajetória é semelhante. O mercado acompanhará os dados de inflação e as comunicações dos bancos centrais para calibrar as expectativas.
Além disso, a política fiscal americana, incluindo os planos do secretário do Tesouro, Scott Bessent, mencionados no título da entrevista, pode influenciar o mercado de títulos do Tesouro americano e, por consequência, o dólar. Al-Hussainy não detalhou esses planos, mas a referência a "Bessent's Treasury Twist" indica que há expectativas sobre mudanças na emissão de dívida americana, o que pode afetar os yields e, indiretamente, o apetite por risco global. Investidores devem monitorar os próximos leilões do Tesouro e as declarações de Bessent.
