Dólar, stablecoins e Kevin Warsh: análise de Eswar Prasad em Jackson Hole

Professor de Cornell discute o status da moeda americana e o avanço das criptos estáveis

Por Marcos Guimarães28 ago 2026
Dólar, stablecoins e Kevin Warsh: análise de Eswar Prasad em Jackson Hole

O que aconteceu

Em uma edição especial do programa Bloomberg Surveillance, transmitida diretamente de Jackson Hole, no estado norte-americano de Wyoming, o professor Eswar Prasad, da Universidade Cornell, conversou com os jornalistas Tom Keene e Lisa Abramowicz. A entrevista, exibida em 28 de agosto de 2026, teve como foco o status atual do dólar americano, o potencial impacto das stablecoins no sistema monetário global e a atuação de Kevin Warsh, presidente do Federal Reserve, sobre outros bancos centrais.

Prasad, que já foi chefe da divisão de estudos econômicos do Fundo Monetário Internacional (FMI) e é autor do livro "The Dollar Trap", trouxe sua visão acadêmica para o debate que dominou o simpósio anual de Jackson Hole. O evento, organizado pelo Fed de Kansas City, reúne banqueiros centrais, economistas e formuladores de política de todo o mundo há mais de quatro décadas, e é visto como um termômetro das tendências da política monetária global.

Contexto

O dólar americano segue como a principal moeda de reserva internacional, mas enfrenta desafios crescentes. Dados do Fundo Monetário Internacional indicam que a participação do dólar nas reservas cambiais globais caiu de cerca de 72% em 2000 para aproximadamente 58% em 2025, ainda que continue à frente de todas as outras moedas combinadas. O avanço das stablecoins, criptomoedas atreladas a ativos estáveis como o dólar ou ouro, adiciona uma nova camada de complexidade.

Empresas como Tether e Circle, emissoras das stablecoins USDT e USDC, respectivamente, já movimentam bilhões de dólares em transações diárias. O mercado total de stablecoins superou US$ 250 bilhões em valor de mercado em meados de 2026, segundo dados de agregadores do setor. Esse crescimento acontece em paralelo à chegada de Kevin Warsh à presidência do Federal Reserve, nomeado em 2026 após a conclusão do mandato de Jerome Powell. Warsh, ex-vice-presidente do Fed e crítico frequente de políticas de afrouxamento quantitativo, assumiu em um momento em que a inflação americana mostrava sinais de reaceleração.

Por que importa

A análise de Prasad importa porque conecta dois fenômenos que raramente são tratados em conjunto: a hegemonia do dólar e a ascensão das stablecoins. Se essas moedas digitais atreladas ao dólar continuarem crescendo, elas podem, paradoxalmente, reforçar o domínio da moeda americana, ao mesmo tempo em que criam canais paralelos de liquidez fora do controle direto do Federal Reserve.

Para bancos centrais de países emergentes, como o Brasil, essa dinâmica tem consequências práticas. Stablecoins em dólar já são usadas como proteção contra a desvalorização de moedas locais, o que pode pressionar as reservas cambiais e complicar políticas de câmbio. Ao mesmo tempo, a postura de Warsh à frente do Fed, com foco em combate à inflação e menor intervenção nos mercados, influencia diretamente o custo do capital para empresas e governos ao redor do mundo.

Impacto

No curto prazo, a entrevista de Prasad sinaliza um debate crescente sobre regulação de stablecoins. Nos Estados Unidos, o Congresso discute projetos de lei que exigiriam lastro integral e auditoria pública das reservas dessas criptomoedas. Na Europa, o regulamento MiCA, em vigor desde 2024, já impõe regras rígidas aos emissores.

No médio prazo, o impacto de Kevin Warsh pode ser sentido em países que dependem do dólar para financiamento externo. Sua inclinação por juros mais altos, se concretizada, encareceria o serviço da dívida de economias emergentes. Prasad, em sua análise, destacou que a credibilidade do Fed é um ativo global, e que mudanças na comunicação do banco central americano afetam expectativas de inflação e câmbio em todo o mundo.

O que muda

A principal mudança apontada por Prasad é o papel das stablecoins como "cavalo de Troia" do dólar digital. Sem uma moeda digital oficial do banco central americano, as stablecoins privadas preenchem esse espaço, criando um sistema paralelo que pode acelerar transações internacionais e reduzir custos, mas também ampliar riscos de corrida bancária digital em momentos de estresse. Ele reforçou que o dólar continua hegemônico, mas que a forma como ele é usado está se transformando rapidamente.

Kevin Warsh, por sua vez, representa uma continuidade da doutrina hawkish no Fed, o que tende a fortalecer o dólar no curto prazo. Para Prasad, o desafio de Warsh será equilibrar essa postura com a necessidade de manter a estabilidade financeira em um ambiente de crescente digitalização da moeda.

O que vem agora

Prasad deve continuar a debater esses temas em publicações acadêmicas e em sua coluna em veículos de economia internacional. O próximo marco relevante é a reunião de política monetária do Federal Reserve, marcada para setembro de 2026, quando Warsh deve sinalizar os rumos das taxas de juros. No front regulatório, o Congresso americano retoma os trabalhos em setembro, com discussões sobre um marco legal para stablecoins na pauta.

Para o Brasil, o Banco Central observa de perto a evolução das stablecoins, especialmente no que diz respeito ao uso da Moeda Digital Brasileira projetada para 2025 e à regulação de corretoras de criptoativos no país. A visão de Prasad serve de alerta: o dólar continua no centro, mas as stablecoins estão redesenhando o mapa da finança global.