Ex-alunos do Google DeepMind criam ferramentas para acelerar fusão nuclear

Startup Fusionality desenvolve sistemas de controle e simulação para o setor

Por Marcos Guimarães9 set 2026
Ex-alunos do Google DeepMind criam ferramentas para acelerar fusão nuclear

O que aconteceu

A Fusionality, startup sediada em Lausanne, na Suíça, levantou um aporte pré-seed de US$ 3,7 milhões (CHF 3 milhões), segundo o TechCrunch (publicado em 8 de setembro de 2026). A rodada foi liderada pelas gestoras Founderful e Playfair. A empresa foi fundada neste ano por Federico Felici, que atua como CEO, e Jonas Buchli, que é CTO. Buchli trabalhava no Google DeepMind, enquanto Felici vinha do EPFL (Escola Politécnica Federal de Lausanne), onde operava um tokamak experimental.

A startup nasceu de uma dor repetida no setor: empresas de fusão nuclear diziam que gostariam de comprar componentes para seus sistemas de controle, mas não existia fornecedor especializado, como contou Felici ao TechCrunch. "Não há ninguém que fale a língua da fusão", afirmou. Os dois fundadores passaram anos desenvolvendo formas de controlar dispositivos experimentais de fusão e resolveram transformar essa experiência em produto.

Contexto

O setor de fusão nuclear vive um momento de expansão, com dezenas de startups tentando transformar avanços de engenharia em eletricidade na rede. Uma cadeia de suprimentos emergente já atende esse mercado, com empresas como a Kyoto Fusioneering produzindo componentes para converter descobertas em energia. Mas a camada de controle dos reatores, que une hardware e software, permanece pouco explorada.

Segundo Felici, a maioria das companhias constrói seus próprios sistemas de controle do zero. "Cerca de 80% da lógica de cada sistema de controle é exatamente a mesma", afirmou. A física fundamental dos plasmas, que precisam ser mantidos em temperatura, formato e nível de combustível adequados com decisões em frações de segundo, é consistente entre diferentes projetos de reatores, ainda que cada máquina tenha suas particularidades.

A Fusionality planeja explorar essa base comum para criar uma suíte de controles e ambientes de simulação prontos, que as startups ajustam ao seu próprio design. Os fundadores se conheceram enquanto ensinavam inteligência artificial a operar um tokamak, um dispositivo em formato de rosquinha usado para estudar fusão. Felici estava no EPFL, e Buchli, no Google DeepMind.

Por que importa

A fusão nuclear é considerada uma das promessas mais complexas da energia limpa, com prazos de comercialização estimados por diversas empresas para a década de 2030. Mas a falta de fornecedores especializados força cada startup a reinventar a roda. A Fusionality, com controle e simulação prontos, pode acelerar cronogramas e reduzir custos de engenharia, o que interessa diretamente a quem investe bilhões no setor.

Para os concorrentes, ter um fornecedor comum é vantajoso: evita erros repetidos e permite que cientistas foquem na física de cada reator. O modelo é semelhante ao que aconteceu em outras indústrias, onde a verticalização deu lugar a uma cadeia de suprimentos madura. No caso da fusão, ainda há poucos players nesse nicho específico, e a Fusionality entra como uma das primeiras.

Impacto

O impacto de curto prazo é a oferta de ferramentas de controle que hoje custam tempo e dinheiro a cada startup. Com US$ 3,7 milhões no caixa, a Fusionality pode contratar engenheiros e fechar os primeiros contratos com clientes-piloto. No médio prazo, se os sistemas funcionarem em múltiplos reatores, a empresa se torna peça central na padronização de um setor que ainda opera em modo artesanal.

Um risco é a complexidade técnica: controlar plasma exige software em tempo real integrado a hardware de alta precisão, e a promessa de 80% de código reaproveitável precisa ser validada em máquinas reais. Outro ponto é a competição. Se grandes grupos como Google passarem a investir diretamente em fusão, um spin-off de seus próprios ex-funcionários pode ganhar relevância estratégica, mas também pode encontrar barreiras de propriedade intelectual.

O que muda

O controle de reatores de fusão sai do escopo exclusivo de quem projeta o reator e vira um serviço especializado. Isso muda a dinâmica de entrada no mercado: novas startups de fusão poderão contratar um sistema de controle quase pronto em vez de montar equipes inteiras para essa função. A Fusionality, de Lausanne, planeja oferecer tanto os ambientes de simulação quanto os controladores que ajustam em tempo real as condições do plasma.

Para a Suíça, ter uma empresa nesse nicho reforça o ecossistema local de fusão, que já conta com o EPFL e o tokamak usado como banco de testes pelos fundadores. A presença de Buchli, ex-Google DeepMind, indica circulação de talento de IA para a energia. O conhecimento dos dois em aprendizado por reforço aplicado a tokamaks foi a base do produto, segundo o relato de Felici ao TechCrunch.

O que vem agora

A Fusionality não divulgou prazos para o lançamento comercial da suíte, mas o aporte deve cobrir os próximos 12 a 18 meses de desenvolvimento, prazo típico para rodadas pré-seed. A empresa precisa converter os clientes que relataram a dor em contratos de teste, provando que o sistema controle funciona em diferentes designs de reator.

Observadores do setor acompanharão se a abordagem de fornecedor comum ganha tração em um mercado ainda jovem, no qual cada startup aposta em tecnologias distintas, de tokamaks a stellarators. A Fusionality, de Felici e Buchli, aposta que a física é compartilhada o bastante para valer a pena. O tempo dirá se os clientes concordam.

Fontes

TechCrunch: Google DeepMind alumni are building tools to accelerate fusion power for the grid (https://techcrunch.com/2026/09/08/google-deepmind-alumni-are-building-tools-to-accelerate-fusion-power-for-the-grid/)