Google compra 1 milhão de créditos de carbono de arroz na Índia

Acordo de quatro anos com a Mitti Labs cobre fazendas em três estados e chega a 100 mil hectares no pico

Por Marcos Guimarães10 set 2026
Google compra 1 milhão de créditos de carbono de arroz na Índia

O que aconteceu

O Google fechou um acordo de quatro anos para comprar 1 milhão de créditos de carbono da Mitti Labs, startup indiana de climate tech, com entregas até 2030. A compra de 1 milhão de créditos de carbono pela Mitti Labs, empresa fundada em 2023, foi noticiada pela TechCrunch em 10 de setembro, e as companhias afirmam que se trata do maior negócio de créditos de metano em arroz já anunciado publicamente.

O contrato cobre fazendas de arroz nos estados de Karnataka, Andhra Pradesh e Telangana, no sul da Índia, e deve atingir cerca de 100 mil hectares no pico da entrega, segundo Xavier Laguarta, cofundador da Mitti Labs. Os valores financeiros não foram divulgados. O acordo entre o Google e a Mitti Labs foi negociado ao longo de aproximadamente um ano.

A Mitti Labs paga produtores rurais para adotar práticas que reduzem o tempo em que os campos de arroz permanecem alagados. A técnica corta o metano liberado durante o cultivo e também diminui o consumo de água. Segundo a startup, o método reduz as emissões de metano em cerca de 50% e o uso de água de irrigação em cerca de 40%, sem queda na produtividade das lavouras.

Contexto

A Mitti Labs foi fundada em 2023 e tem operações em Nova York e Bengaluru. A startup construiu uma plataforma de GeoAI que combina imagens de radar de satélite com medições feitas em campo para acompanhar à distância o crescimento das lavouras, a umidade do solo e o alagamento em propriedades de pequenos produtores. A plataforma usa imagens de radar de abertura sintética de satélites comerciais e públicos, com resolução que varia de 50 centímetros a 10 metros, além de dados proprietários coletados no campo.

A aproximação com o Google começou há cerca de um ano, quando a empresa buscava incluir projetos de redução de metano em seu portfólio de créditos de carbono. Dois fatores pesaram na decisão: a economia de água proporcionada pelo método e a capacidade da Mitti Labs de operar em escala. Nos últimos dois anos, os projetos da startup economizaram mais de 500 bilhões de litros de água, segundo a própria empresa.

Do lado do Google, o negócio acontece em um momento delicado para suas metas climáticas. A companhia persegue a neutralidade de emissões até 2030 enquanto investe pesado em infraestrutura de inteligência artificial. As emissões de gases de efeito estufa do Google em 2025 cresceram 18% na comparação com o ano anterior, chegando a cerca de 14,5 milhões de toneladas métricas de equivalente de CO2, conforme o relatório ambiental da empresa divulgado em junho.

Por que importa

O arroz é uma das culturas agrícolas que mais emitem metano, porque os campos alagados criam condições para que micro-organismos produzam o gás. Mudar o manejo da água em 100 mil hectares é o tipo de volume que dá escala a um mercado de créditos ainda incipiente, formado por projetos pequenos e difíceis de auditar. Créditos de metano agrícola são justamente os que mais sofrem questionamento sobre mensuração, porque dependem de estimativas e não de medição direta em cada talhão.

Foi nesse ponto que o Google concentrou a due diligence. Laguarta disse que a avaliação incluiu o escrutínio da tecnologia de monitoramento da Mitti Labs e visitas às fazendas antes da assinatura do contrato. A plataforma de radar da startup existe para resolver esse problema de verificação: sem sensoriamento remoto, não há como comprovar o que acontece em milhares de propriedades pequenas e dispersas.

Impacto

Para a Mitti Labs, o contrato funciona como aval de mercado. "Ter o Google, um dos compradores mais sofisticados do mercado, com processos rigorosos de due diligence, é obviamente um bom sinal para nós", afirmou Laguarta, acrescentando que o negócio permite à empresa escalar de forma significativa e atender grandes compradores corporativos.

Para o Google, o acordo é uma peça a mais na tentativa de compensar emissões que crescem junto com a expansão de data centers para IA. Créditos de metano em arroz têm apelo adicional porque entregam dois resultados ao mesmo tempo: redução de gases de efeito estufa e economia de água em regiões agrícolas pressionadas. A empresa não informou quanto do total de 1 milhão de créditos já foi entregue nem como eles entram no balanço de suas metas até 2030.

O que muda

Com o contrato, a Mitti Labs passa a operar no volume exigido por multinacionais, algo que startups de crédito de carbono raramente alcançam sem um comprador âncora. O negócio também empurra a discussão sobre metano agrícola para o centro da agenda climática corporativa, que até agora tratava o tema como nicho. O acordo entre a Mitti Labs e o Google deve atrair atenção de outros compradores que monitoram o mercado em busca de projetos auditáveis em agricultura.

O que vem agora

A execução do contrato se estende até 2030, com entregas escalonadas ao longo dos quatro anos e a meta de atingir cerca de 100 mil hectares no pico. Os próximos passos dependem da adesão de produtores nos três estados indianos e da capacidade da plataforma de GeoAI de verificar o manejo da água em cada propriedade. As empresas não detalharam cronogramas intermediários nem valores por crédito.

Fontes

  • TechCrunch: Google signs its biggest rice-methane carbon credit deal with Indian startup Mitti Labs (https://techcrunch.com/2026/09/10/google-signs-its-biggest-rice-methane-carbon-credit-deal-with-indian-startup-mitti-labs/)