Hidrogênio subterrâneo: quanto existe sob nossos pés?

Pesquisadores revisam dados de mina canadense para avaliar potencial do hidrogênio geológico como combustível limpo.

Por Marcos Guimarães17 ago 2026
Hidrogênio subterrâneo: quanto existe sob nossos pés?

O que aconteceu

Barbara Sherwood Lollar, geoquímica da Universidade de Toronto, revisitou dados de hidrogênio coletados na mina Kidd Creek, no norte de Ontário, onde na década de 1990 sua equipe encontrou água aprisionada há mais de um bilhão de anos. Naquela época, a descoberta revelou micróbios que se alimentam de hidrogênio produzido em reações entre a água e as rochas. Agora, a cientista quer saber se a quantidade do gás no local é suficiente para torná-lo uma fonte útil de combustível de baixo carbono. “Se conseguirmos colocar mentes inteligentes para descobrir como conectá-lo e usá-lo, teremos uma vitória para essa economia nascente”, afirmou ao MIT Technology Review.

Contexto

O hidrogênio é apontado como uma fonte versátil de energia, mas sua produção convencional gera emissões de gases de efeito estufa e consome mais energia do que o gás contém. O chamado hidrogênio geológico — formado naturalmente no subsolo quando moléculas de água são divididas por reações químicas com rochas ricas em ferro ou pela decomposição radioativa de outros elementos — poderia mudar essa equação. A busca por esses reservatórios se espalhou pelo mundo, envolvendo dezenas de startups, como a australiana HyTerra e a Koloma, apoiada por Bill Gates, que exploram o Meio-Oeste dos EUA em busca de rochas oceânicas antigas associadas à produção do gás.

Por que importa

Pesquisadores do Serviço Geológico dos EUA estimam que trilhões de toneladas de H2 sejam produzidas na crosta terrestre. Se uma pequena fração disso puder ser recuperada, seria suficiente para atender à demanda global de hidrogênio por séculos. No entanto, a busca até agora não encontrou nenhum reservatório comercialmente viável, e os dados públicos sobre o que foi descoberto são escassos, já que empresas disputam posição e buscam atrair investimentos.

Impacto

A análise dos dados de 35 furos de sondagem na mina Kidd Creek, feita por Sherwood Lollar e seu colega Oliver Warr, oferece uma nova leitura do potencial do hidrogênio geológico. Se confirmada a viabilidade de extração, isso poderia impulsionar uma indústria nascente de combustível limpo, reduzindo a dependência de métodos de produção intensivos em carbono. No curto prazo, porém, a falta de reservatórios comprovados mantém o setor em estágio experimental, com investimentos de risco e incerteza regulatória.

O que muda

A revisão dos dados de longo prazo da mina canadense traz um método mais robusto para avaliar a presença de hidrogênio em subsuperfície. Isso pode orientar futuras explorações, ajudando a distinguir entre ocorrências geológicas e reservas exploráveis. Para o Brasil, que possui vasto território com formações geológicas antigas, a técnica pode ser relevante em futuras prospecções, embora não haja ainda iniciativas públicas conhecidas nesse sentido.

O que vem agora

A equipe de Sherwood Lollar pretende aprofundar a análise dos dados de Kidd Creek e buscar formas de conectar o hidrogênio à rede de energia. Paralelamente, startups como HyTerra e Koloma continuam perfurando no Meio-Oeste americano, na expectativa de anunciar a primeira descoberta comercialmente viável. A comunidade científica aguarda a publicação de dados mais transparentes, que possam validar as estimativas de trilhões de toneladas e transformar o hidrogênio geológico em realidade energética.