Ilya Levtov, da Craft, construiu software bilionário sem saber codar

Executivo formado em negócios e ex-violoncelista de Juilliard comanda a Craft, de software de supply chain, com 35 agências federais como clientes.

Por Marcos Guimarães27 ago 2026
Ilya Levtov, da Craft, construiu software bilionário sem saber codar

O que aconteceu

A Craft ganhou destaque no mercado de software para cadeias de suprimentos sob o comando de Ilya Levtov, um fundador que não tem formação técnica e nunca programou. Levtov afirmou à Crunchbase News que não escreveu uma linha de código em toda a vida, nem antes nem depois de fundar a empresa. "Eu nunca escrevi uma linha de código na minha vida", disse ele. "E ainda não escrevi." A companhia, criada há 12 anos em São Francisco, trabalha com 35 agências federais e gera receita anual recorrente na casa dos dois dígitos de milhões de dólares (fonte: Crunchbase News). Levtov levantou US$ 42 milhões em investimentos para a Craft ao longo dos anos.

A história de Levtov foi contada na quarta parte de uma série da Crunchbase News sobre fundadores sem formação técnica que conseguiram financiamento de venture capital. As edições anteriores perfilam Adeel Khan, da MagicSchool AI, Sarah Buchner, da Trunk Tools, e Ali Hussain, da Tabs.

Contexto

O caminho de Levtov até a tecnologia foi indireto. Ele emigrou da União Soviética para a Inglaterra quando era criança, filho de dois músicos, e começou a tocar violoncelo aos 4 anos. Estudou em uma escola de música especializada em Londres e na Royal College of Music, além de participar de um intercâmbio entre Columbia e Juilliard enquanto cursava literatura inglesa na Universidade Columbia.

Ao se formar, Levtov decidiu deixar a música como hobby e seguir carreira em negócios. Passou pelo Goldman Sachs, fez MBA em Stanford e trabalhou na Spot Runner, uma startup de ad-tech que cresceu de 10 para cerca de 200 funcionários durante sua passagem. "Eu fui completamente picado pelo bicho", lembra ele. "E disse: é isso que quero fazer da minha vida. Quero construir uma empresa um dia. De alguma forma, empreendedorismo é para mim."

Antes de fundar a Craft, Levtov foi investidor na Venrock, atuou em função operacional na Crunchyroll, serviço de vídeo, e depois trabalhou na Deutsche Telekom ajudando startups do Vale do Silício a se expandirem na Europa.

Por que importa

A trajetória de Levtov desafia a preferência convencional do Vale do Silício por fundadores com formação técnica. Ele tinha credenciais tradicionais de fundador, como Stanford Business School, experiência como VC na Sand Hill Road e passagem por uma startup acelerada por venture capital, mas faltava exatamente o que o mercado costuma exigir: saber programar.

Para empreendedores brasileiros, o caso mostra que é possível comandar uma empresa de software sem escrever código, desde que o fundador entenda profundamente o problema de negócio e saiba montar um time técnico forte. A Craft atende um setor complexo, o de inteligência de cadeia de suprimentos, que exige integração com sistemas legados de grandes organizações.

Impacto

No curto prazo, a Craft segue crescendo com receita recorrente de dois dígitos de milhões de dólares e uma base concentrada no setor público americano, com 35 agências federais como clientes. O número indica que o software da empresa resolve um problema crítico de visibilidade e logística, já que agências governamentais costumam ser clientes exigentes e lentos para adotar novos fornecedores.

No médio prazo, o caso de Levtov pode influenciar a forma como investidores avaliam fundadores não técnicos. A Crunchbase News dedicou uma série inteira ao tema, o que sugere que o mercado de venture capital está reexaminando a premissa de que apenas engenheiros conseguem lançar empresas de tecnologia bem-sucedidas.

O que muda

A Craft mostra que o conhecimento de domínio, no caso a dinâmica de cadeias de suprimentos, pode ser mais relevante do que a capacidade de programar. Levtov trouxe experiência em finanças, estratégia e operações, além de uma rede de contatos construída em Stanford, Goldman Sachs, Venrock e Crunchyroll.

A experiência dele também revela as desvantagens reais de ser um fundador não técnico. A série da Crunchbase News foi criada justamente para explorar essas barreiras, incluindo dificuldades para contratar engenheiros, ganhar credibilidade com times de produto e avaliar questões técnicas complexas.

O que vem agora

Ainda não há anúncio público de novos aportes para a Craft ou de expansão para outros mercados, como o Brasil. Levtov continua à frente da empresa em São Francisco, e o histórico de receita recorrente pode sustentar uma nova rodada de investimento, desta vez com menos dependência de capital externo, dado que o negócio já gera receita na casa dos dois dígitos de milhões de dólares por ano.

O próprio Levtov admite que o caminho é possível, mas não simples. "Quero construir uma empresa um dia", disse ele, sobre a decisão tomada ainda na época da Spot Runner. Agora, com a Craft madura e lucrativa, o desafio seguinte é manter o crescimento no setor público americano sem abrir mão da qualidade técnica que um fundador não programador precisa garantir por meio do time.