Investidores mantêm aposta em Hichilema e na Zâmbia apesar de tensões pós-eleição

Rali do cobre posiciona país como peça-chave na infraestrutura de IA; mercado não se abala com disputas eleitorais.

Por Marcos Guimarães1 set 2026
Investidores mantêm aposta em Hichilema e na Zâmbia apesar de tensões pós-eleição

O que aconteceu

A Zâmbia viveu um período de turbulência política depois das eleições, mas isso não afastou o apetite dos investidores internacionais. Relatório da Bloomberg publicado em 1º de setembro de 2026 mostra que os ativos zambianos, incluindo ações, títulos soberanos e o kwacha, continuam atraindo fluxos significativos de capital. O movimento ocorre em meio a um rali do cobre, commodity da qual o país é um dos maiores produtores mundiais.

O Bloomberg destaca que o interesse não é pontual. Investidores globais enxergam na Zâmbia um elo estratégico na construção da infraestrutura física que sustenta a inteligência artificial, já que o cobre é insumo vital para cabos, data centers e redes elétricas de alta capacidade. O presidente Hakainde Hichilema, que lidera o país desde 2021, é visto pelo mercado como garantia de estabilidade macroeconômica e reformas pró-negócios.

A tensão pós-eleitoral, que incluiu protestos e questionamentos de resultados, não foi suficiente para reverter a percepção positiva. As negociações de títulos zambianos no mercado secundário seguem firmes, e o kwacha manteve relativa valorização frente ao dólar nos últimos meses, segundo dados de mercado citados pela reportagem.

Contexto

A Zâmbia, antiga Rodésia do Norte, é o segundo maior produtor de cobre da África, atrás apenas da República Democrática do Congo. O metal responde por mais de 70% das exportações do país, o que historicamente torna sua economia vulnerável às oscilações do preço da commodity. Com o avanço global da inteligência artificial, a demanda por cobre disparou: cada data center de grande porte exige toneladas do metal para fiação e refrigeração.

O governo de Hichilema, eleito em agosto de 2021 com a promessa de combater a corrupção e renegociar a dívida externa, obteve em 2024 um acordo com o FMI e credores privados para reestruturar cerca de US$ 6,3 bilhões em títulos. Esse histórico de credibilidade ajudou a ancorar a confiança dos investidores, que veem no atual mandato uma continuidade da política ortodoxa. A eleição de 2026, porém, reacendeu disputas locais, com acusações de irregularidades e protestos em algumas províncias.

Por que importa

A aposta dos investidores na Zâmbia tem efeito prático direto: o país consegue financiar projetos de infraestrutura, expandir a produção de cobre e reduzir o custo do endividamento. Para o mercado global, cada real investido em ativos zambianos é uma aposta de que a transição energética e a corrida da IA vão exigir muito mais cobre nos próximos anos. Quem ganha com isso são os fundos de investimento que já compraram títulos zambianos a preços descontados e agora veem o valor subir.

Quem perde são os especuladores que apostaram em calote ou em fuga de capital após as eleições. A moeda local, o kwacha, segue negociada a um nível estável, o que indica que o mercado não precifica risco político de curto prazo.

Impacto

No curto prazo, a Zâmbia deve continuar atraindo fluxos de portfolio, o que fortalece suas reservas internacionais e permite ao Banco Central da Zâmbia manter uma política monetária menos restritiva. No médio prazo, a alta do cobre pode impulsionar novos investimentos em mineração, incluindo expansão da mina de Kansanshi e o projeto de cobre de Sentinel, ambos operados por gigantes como First Quantum Minerals.

No cenário geopolítico, a Zâmbia se torna um contrapeso à hegemonia do Chile e do Peru na oferta de cobre, e isso atrai a atenção de potências como China e Estados Unidos, que disputam contratos de longo prazo para garantir o insumo. A infraestrutura de IA, que inclui cabos submarinos e data centers, depende de cobre refinado, e a Zâmbia já exporta parte de sua produção para a Ásia.

O que muda

A postura dos investidores em relação à Zâmbia muda o cálculo de risco para outros países africanos produtores de minerais críticos, como a RDC e Botswana. Se a Zâmbia consegue manter o acesso ao capital externo mesmo com ruído político, outros governos do continente passam a ser vistos com mais tolerância pelos mercados.

Para o governo Hichilema, o sinal é claro: ele tem liberdade para focar em reformas econômicas sem temer fuga de capitais, desde que mantenha o ritmo de pagamento da dívida e a abertura comercial. Isso também pressiona por mais transparência no uso dos recursos do cobre, que historicamente gerou riqueza concentrada e pouca inclusão social.

O que vem agora

Os próximos passos incluem a definição do novo gabinete de Hichilema para o segundo mandato e a divulgação de resultados fiscais do terceiro trimestre de 2026. Investidores acompanham também a reunião do FMI prevista para outubro, onde a Zâmbia poderá solicitar nova linha de financiamento. A cotação do cobre, que hoje gira na casa dos US$ 10 mil por tonelada na Bolsa de Metais de Londres, é o principal termômetro para a manutenção desse fluxo.

Se o metal continuar em alta, a Zâmbia pode revisar para cima suas projeções de crescimento do PIB, atualmente em 4,8% para 2026. Há ainda expectativa de que o país feche novos acordos de fornecimento de cobre com empresas de tecnologia, como fabricantes de chips e operadores de nuvem, que buscam contratos de longo prazo para evitar escassez.

FONTES