Kepler Computing propõe nova arquitetura para aliviar escassez de memória

Startup americana afirma dispensar litografia EUV em nova geração de HBM

Por Marcos Guimarães9 set 2026
Kepler Computing propõe nova arquitetura para aliviar escassez de memória

O que aconteceu

A Kepler Computing, startup fundada em 2018 por físicos e cientistas da computação em San Jose, Califórnia, anunciou oficialmente sua saída do stealth e apresentou uma nova proposta para construção de memórias de alta largura de banda (HBM). A empresa desenvolveu um design de empilhamento tridimensional combinado a um material proprietário, o que permite aumentar a densidade dos chips sem depender da litografia ultravioleta extrema (EUV), técnica usada pelos grandes fabricantes para encolher transistores.

A Kepler levantou US$ 468 milhões em investimentos ao longo dos últimos anos, vindos de nomes como GlobalFoundries, Intel Capital, AMD Ventures, o fundo britânico Baillie Gifford e o Gates Frontier, fundo pessoal de Bill Gates. Em julho, o Departamento de Comércio dos EUA comprometeu-se a apoiar a empresa com até US$ 245 milhões para desenvolver, em solo americano, uma nova classe de memória para IA, habilitada por tecnologias ferroelétricas e de empilhamento 3D.

A nova arquitetura de HBM, criada pela Kepler Computing, também é acompanhada de avanços equivalentes na memória cache de alta velocidade (SRAM), que fica dentro do die do chip. A HBM usa pilhas de DRAM, enquanto a SRAM é integrada ao núcleo do processador para reduzir tempos de transferência de dados. Kepler diz que ambas se beneficiam da mesma abordagem.

Os testes da Kepler estão concentrados em Cingapura, onde a GlobalFoundries, fabricante parceira e investidora de US$ 50 milhões, mantém uma instalação. Nos últimos dois anos, a startup construiu as chamadas "mini fabs", nas quais produz seus chips de memória junto às wafers de 28 nanômetros da GlobalFoundries. A companhia também realizou experimentos nas instalações da GlobalFoundries em Burlington, Vermont.

Contexto

A escassez global de chips de memória não é um fenômeno novo. Historicamente, o mercado passa por ciclos de demanda e oferta, mas o crescimento acelerado de cargas de trabalho de IA impôs uma pressão sem precedentes sobre tipos específicos de memória, como a HBM, usada em aceleradores de GPU e XPU. A construção de novas fábricas de chips é extremamente cara e lenta, o que torna difícil responder rapidamente a picos de demanda.

No método convencional, os fabricantes recorrem a máquinas de litografia EUV para desenhar circuitos cada vez menores na pastilha de silício, o que aumenta a densidade de transistores e de memória. Kepler propõe um caminho diferente: usar empilhamento vertical de camadas e um material próprio para atingir o mesmo ganho de densidade, mas em processos mais antigos e econômicos.

A empresa foi criada em 2018 e operou em sigilo por mais de sete anos. Esse período longo sem revelações públicas é incomum mesmo para startups de hardware, mas os investidores apostaram alto. A GlobalFoundries, por exemplo, além do aporte de capital, cedeu suas fábricas e processos para que Kepler valide a ideia em ambiente de produção real.

Por que importa

O gargalo de memória HBM afeta diretamente todos os players de computação de alto desempenho. Treinar grandes modelos de linguagem exige acesso rápido a grandes volumes de dados, e a HBM tornou-se peça-chave em servidores de IA. Hoje, esse mercado é dominado por poucas empresas, como Samsung, SK Hynix e Micron, que controlam a oferta e os preços.

Se a Kepler conseguir escalar sua tecnologia, compradores de memória, como fabricantes de GPUs e provedores de nuvem, ganhariam uma fonte alternativa de fornecimento. A produção poderia ser feita em fábricas que não dependem das máquinas EUV mais novas, o que reduziria custos de entrada e aumentaria a resiliência da cadeia global.

Impacto

No curto prazo, o impacto depende da capacidade de a Kepler passar de protótipos a volumes comerciais. A parceria com a GlobalFoundries em Cingapura é uma pista de que a tecnologia pode ser fabricada em processos maduros. Os US$ 245 milhões prometidos pelo governo americano, contudo, vinculam o desenvolvimento a instalações nos EUA, o que sugere um esforço para reindustrializar a fabricação de memórias no país.

No médio prazo, uma arquitetura que elimina a dependência de EUV pode abalar a lógica de investimento do setor. Fábricas menores ou mais antigas, como a de 28 nanômetros da GlobalFoundries, poderiam voltar a ser relevantes para produtos de ponta. Isso mudaria a posição de empresas que atualmente dominam por terem acesso a litografia de última geração.

A Kepler também precisa mostrar que seu material proprietário não compromete a velocidade nem durabilidade das memórias. A abordagem ferroelétrica, citada no anúncio do Departamento de Comércio, é uma área de pesquisa promissora, mas ainda não provada em larga escala para HBM.

O que muda

Se o plano funcionar, a produção de memórias deixa de ser um oligopólio de poucos gigantes com acesso a EUV. Uma startup como Kepler pode oferecer alternativa de densidade equivalente usando processos convencionais, como o 28nm da GlobalFoundries. Isso significa que, em vez de construir fábricas bilionárias, seria possível adaptar instalações existentes, o que encurtaria prazos de resposta a flutuações de mercado.

Para os consumidores finais, via provedores de nuvem, o custo de computação de IA pode cair se houver mais oferta de HBM. A escassez atual inflaciona o preço de servidores e, consequentemente, de serviços de IA na nuvem. Uma oferta mais estável tiraria pressão desse mercado.

O que vem agora

A Kepler não deu cronograma para produtos comerciais. Antes disso, precisará validar a confiabilidade de suas memórias em condições de uso intenso, algo que costuma levar vários trimestres. As mini fabs em Cingapura devem continuar servindo de base para a qualificação do processo.

O próximo passo lógico é anunciar um parceiro de design que adote a memória Kepler em um chip comercial. A presença da AMD Ventures entre os investidores sugere que um acelerador de IA pode ser um candidato natural. O dinheiro do governo americano, por outro lado, pode obrigar a companhia a duplicar testes em solo americano, o que reduz a velocidade de avanço, mas fortalece a cadeia local.

Até lá, a Kepler segue sob cuidadoso escrutínio de uma indústria que já viu promessas de inovação fracassarem na fase de manufatura. A diferença, agora, é que os investidores colocaram US$ 468 milhões na mesa e o governo dos EUA, outros US$ 245 milhões em potencial, para que a startup resolva o problema da escassez de memória.

Fontes

WIRED - A Stealth Startup Thinks It Just Hacked the Memory Shortage