Kushner, da Thrive, critica VCs do Vale por euforia com IA

Em primeira carta a investidores, fundador da Thrive Capital alerta contra o excesso de otimismo no setor de inteligência artificial.

Por Marcos Guimarães14 ago 2026
Kushner, da Thrive, critica VCs do Vale por euforia com IA

O que aconteceu

Na primeira carta a investidores da Thrive Capital, o fundador Joshua Kushner escreveu que 'é difícil exagerar a magnitude da oportunidade' da inteligência artificial, mas que 'seria um erro grave em nossas mentes deixar a excitação enfraquecer nossa disciplina de investimento'. A carta, vazada para a Bloomberg e reportada pelo TechCrunch, também critica a forma como o Vale do Silício trata o setor: 'A indústria pode se fixar em mudanças hiperincrementais em vez de onde a tecnologia, em última análise, leva'.

A Thrive, firma sediada em Nova York, adota uma postura oposta ao chamado 'spray-and-pray'. Segundo estimativas da Bloomberg, cerca de 90% do capital da firma é direcionado para as 15 principais investidas de cada fundo. Kushner define a Thrive como um grupo de 'pensadores independentes' e reforça: 'Somos independentes porque os mercados se movem entre medo e entusiasmo, e nenhum dos dois substitui o julgamento'.

Contexto

A carta de Kushner é uma resposta direta à filosofia dominante no Vale do Silício, popularizada por Marc Andreessen, que defende o modelo de 'outliers': fazer muitas apostas, aceitar perdas na maioria, e contar que os poucos grandes acertos compensem todo o resto. Essa abordagem leva os VCs a buscar constantemente o próximo OpenAI.

A Thrive historicamente concentra seus recursos em poucas empresas, como mostra sua relação com a OpenAI — uma das maiores apostas da firma. Em dezembro de 2025, os papéis se inverteram quando a OpenAI tomou uma participação na Thrive, segundo o TechCrunch, mas a carta não detalha esse movimento.

Kushner também descarta a visão tradicional de que VCs existem para desruptar incumbentes. 'Ao contrário de muitos de nossos pares, nossa convicção não era só que essas indústrias seriam desruptadas de fora para dentro, mas também que muitas seriam transformadas de dentro para fora', escreveu sobre o impacto da IA.

Por que importa

A crítica de Kushner chega em um momento em que o mercado de IA atrai valores bilionários e alimenta preocupações com uma bolha. Para fundadores e investidores brasileiros, a carta serve de alerta: mesmo em um setor promissor, disciplina de capital e foco em teses bem definidas podem ser mais rentáveis do que espalhar recursos indiscriminadamente.

A Thrive, que gerencia bilhões, demonstra na prática que é possível ser seletivo e ainda capturar oportunidades transformadoras — algo que contrasta com a corrida desenfreada por startups de IA.

Impacto

A curto prazo, a carta deve alimentar o debate sobre a sustentabilidade dos valuations em IA. A postura da Thrive pode influenciar outros investidores institucionais a reavaliarem suas estratégias de alocação, especialmente em um cenário de juros altos e incerteza macroeconômica.

A longo prazo, a insistência de Kushner em 'concentração em poucas ideias' pode consolidar um movimento de VCs que priorizam teses mais profundas e acompanhamento próximo das investidas, em vez de apostas especulativas em série.

O que vem agora

Espera-se que outros gestores publiquem cartas ou comentem a posição da Thrive. No Brasil, o ecossistema de venture capital deve observar de perto como a abordagem de Kushner se desdobra em novos investimentos da firma — especialmente em áreas como IA aplicada a setores tradicionais, que ele considera transformáveis 'de dentro para fora'. A Thrive não comentou oficialmente o vazamento da carta.