Meta lança Muse, IA que apaga e-mails e faz compras por você

Assistente Muse é o primeiro produto de produtividade com IA da Meta e conecta Gmail e Amazon, mas sabe demais sobre o usuário

Por Marcos Guimarães10 set 2026
Meta lança Muse, IA que apaga e-mails e faz compras por você

O que aconteceu

A Meta lançou o Muse, assistente de IA que marca a primeira investida real da empresa em ferramentas de produtividade com inteligência artificial. A empresa diz que o agente consegue "tirar o trabalho chato das suas costas", ajudando em compras online, e-mails, planejamento de viagens e outras tarefas do dia a dia.

O Muse, produto da Meta, funciona como um agente que executa ações em um computador virtual hospedado na nuvem. O repórter do The Verge testou a ferramenta e relatou que ela, no geral, funcionou como esperado. O problema foi outro: a quantidade de informações que o Muse reuniu sobre ele por conta própria ofuscou a experiência.

Uma das primeiras tarefas foi limpar a caixa de entrada do Gmail. Para isso, foi preciso conectar o Muse a uma conta Google e dar permissão para acessar, ler e apagar mensagens. No celular o processo travou: a tela de login do Google apresentava falhas e devolvia o usuário ao site do Muse em vez de abrir o aplicativo. No notebook, funcionou. O Muse apagou milhares de e-mails promocionais e atualizações.

Depois, o repórter vinculou a conta da Amazon ao assistente e pediu que ele escolhesse tops de academia com tamanho, estilo e cores específicos. Antes de fechar a compra, o Muse notou que havia outros itens no carrinho e perguntou se ele queria removê-los. O detalhe surpreendeu positivamente. A compra foi concluída, e apenas as regatas foram compradas.

Contexto

O lançamento coloca a Meta em um terreno onde ela não era protagonista. A empresa construiu sua reputação em entretenimento e redes sociais, com Instagram, Facebook e WhatsApp, e não em software de produtividade, território dominado por Google e Microsoft. O Muse é a tentativa de virar essa chave.

O histórico de privacidade da companhia pesou durante o teste. O próprio repórter escreveu que não se sentiu bem ao liberar o acesso a todos os seus e-mails, citando o histórico da Meta na área. A empresa afirma que projetou o Muse para trocar dados com aplicativos de terceiros apenas na medida "necessária para que eles funcionem para você", e diz que não compartilha informações do usuário com anunciantes.

O desconforto central veio de outro lugar. O Muse listou interesses muito específicos do repórter vinculados à conta dele no Instagram. Ou seja, a IA da Meta não precisou de muito esforço para demonstrar o que já sabia sobre ele.

Por que importa

O caso expõe o trade-off que define a nova geração de agentes de IA. Para apagar e-mails, comprar roupas ou montar uma viagem, o assistente precisa de acesso amplo a contas pessoais e do direito de agir em nome do usuário. É esse mesmo acesso que transforma um utilitário prático em uma máquina de perfilamento.

Para a Meta, o Muse é uma aposta estratégica: se o assistente pegar, a empresa passa a intermediar não só a atenção do usuário, mas as ações dele dentro de serviços de terceiros, como Gmail e Amazon. Para o usuário, a conta é simples de entender e difícil de fechar. O ganho é tempo. O custo é a superfície de dados exposta.

Impacto

O teste também mostrou que o Muse tem limites. O agente se recusou a gerar imagens de um "rato de desenho animado de calças vermelhas" e de um "personagem de desenho com chapéu vermelho, macacão azul, cabelo castanho e bigode". São descrições que remetem a personagens protegidos por direitos autorais, e o Muse barrou os pedidos. Em compensação, gerou sem dificuldade um vídeo e várias imagens de um evento de lançamento de produto.

Entre as outras funções do Muse estão a geração de podcasts com IA, no estilo do Gemini Notebook, a criação de imagens e vídeos e a montagem de páginas web interativas ou documentos chamados de "artifacts".

O episódio do carrinho da Amazon indica onde o produto pode se diferenciar: agentes que percebem contexto e evitam erros, em vez de apenas cumprir ordens. Já a lista de interesses puxada do Instagram mostra o outro lado, o do rastro que o usuário deixa sem perceber.

O que muda

O Muse deixa de ser promessa e passa a ser produto disponível, com funções que vão de e-mail a compras e criação de conteúdo. Para quem testa, muda a régua: não basta o agente funcionar, é preciso que ele funcione sem expor o que sabe. A Meta diz que não repassa dados a anunciantes, mas o teste do The Verge sugere que o volume de informação reunido pelo assistente é grande o bastante para incomodar mesmo quando tudo opera como planejado.

O que vem agora

O próximo passo é acompanhar como a Meta vai equilibrar capacidade e privacidade em novas versões do Muse, e se o agente chegará ao Brasil. A empresa não anunciou datas para expansão nem detalhou quais países receberão o assistente primeiro. O teste também deixou pendências técnicas do lado da Meta, como a falha de login do Google no celular, que empurrava o usuário de volta ao site do Muse em vez do aplicativo.

Fontes