Noruega considera banir óculos com câmera e wearables de monitoramento
Ministra digital do país quer regulamentar dispositivos como os da Meta e Snap para proteger privacidade em espaços públicos
O que aconteceu
O governo da Noruega está avaliando uma proibição total de óculos com câmera e outros dispositivos vestíveis que gravam imagens, segundo informações divulgadas pela agência de notícias AFP e repercutidas pelo TechCrunch em 2 de setembro de 2026. A ministra digital do país, Karianne Tung, disse que a regulamentação é necessária diante do avanço de tecnologias que combinam inteligência artificial, câmeras e microfones embutidos em itens de uso diário.
Tung citou especificamente os produtos da Meta, dona do Facebook, e da Snap, empresa por trás do Snapchat, como exemplos de wearables com câmera que podem se tornar uma ameaça à privacidade. Esses aparelhos têm conexão com a internet e podem, em breve, incluir reconhecimento facial, o que já provoca reações negativas de defensores das liberdades civis. Muitos consumidores passaram a chamá-los de “pervert glasses”, ou óculos pervertidos, em referência ao potencial de uso para vigilância não consensual.
“Devemos impedir que esses equipamentos sejam usados para monitorar outras pessoas em locais públicos”, afirmou Tung, segundo a AFP. A ministra adiantou que o governo pode proibir o uso de reconhecimento facial de terceiros em ambientes abertos, como parte de um pacote de medidas de proteção à privacidade.
Contexto
A discussão na Noruega não surge do nada. Nos últimos anos, empresas de tecnologia têm investido pesado em óculos inteligentes e câmeras vestíveis. A Meta lançou seus óculos com câmera em parceria com a Ray-Ban, e a Snap também comercializa seus próprios modelos. Esses dispositivos prometem integrar o mundo digital ao físico, mas o risco de gravação não autorizada e de reconhecimento facial sem consentimento gerou um forte backlash.
O termo “pervert glasses” começou a circular nas redes sociais como uma crítica à possibilidade de uso desses aparelhos para filmar pessoas sem permissão, especialmente mulheres e crianças em espaços públicos. Na Europa, onde as leis de proteção de dados são rígidas, a preocupação é ainda maior. A Noruega, embora não seja membro da União Europeia, segue normas semelhantes às do bloco, como o Regulamento Geral de Proteção de Dados (GDPR).
A ministra Karianne Tung destacou que há uma “tendência clara em combinar inteligência artificial com câmeras e microfones embutidos em óculos, fones de ouvido, chapéus e outros objetos que usamos no dia a dia”. Esse cenário, segundo ela, exige ação preventiva do Estado.
Por que importa
A proposta norueguesa pode ter efeito cascata em toda a Europa e no mercado global de tecnologia. Se a proibição for aprovada, a Meta e a Snap terão que adaptar seus produtos ou até retirá-los do país nórdico. Para os consumidores, isso significa mais proteção à privacidade, mas também menos acesso a inovações que estão chegando ao varejo.
Especialistas em direitos digitais veem a medida como um passo necessário para evitar abusos. A gravação não autorizada de pessoas em locais públicos já é um problema, e o reconhecimento facial amplifica o risco de vigilância em massa. Por outro lado, fabricantes de wearables podem argumentar que a tecnologia traz benefícios, como gravação de momentos pessoais ou auxílio para pessoas com deficiência visual. O equilíbrio entre inovação e privacidade é o ponto central do debate.
Para o Brasil, a discussão norueguesa serve de referência. Por aqui, o uso de câmeras em óculos e outros acessórios ainda não tem regulação específica, mas a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) já oferece base para responsabilização em casos de captura indevida de imagens. A decisão da Noruega pode inspirar projetos de lei no Congresso brasileiro.
Impacto
No curto prazo, a simples sinalização de que a Noruega estuda a proibição já cria um efeito inibidor sobre as empresas. Elas podem acelerar o desenvolvimento de recursos de privacidade, como indicadores luminosos de que a câmera está ativa ou sistemas de desfoque automático de rostos. No médio prazo, outros países nórdicos e europeus podem adotar medidas semelhantes, fragmentando o mercado global de wearables.
A medida também pode mudar o comportamento dos consumidores. Se a proibição for aprovada, quem já comprou óculos com câmera terá que se adaptar. A expectativa é que o governo norueguês detalhe os termos da regulamentação, incluindo exceções para uso profissional, como jornalismo ou segurança pública.
O que muda
Na prática, a Noruega deve criar um grupo de especialistas para assessorar o governo na definição das novas regras. Karianne Tung já anunciou essa iniciativa. O grupo terá a missão de recomendar limites claros para o uso de câmeras e microfones em wearables, com foco na proteção de dados pessoais. Também deve avaliar se o reconhecimento facial será totalmente proibido em locais públicos ou se haverá hipóteses de autorização.
Enquanto isso, a Meta e a Snap acompanham o caso com atenção. As duas empresas não se pronunciaram oficialmente sobre a proposta norueguesa até o fechamento desta matéria. O histórico de críticas a essas empresas, no entanto, sugere que elas buscarão um diálogo com o governo para evitar uma proibição seca.
O que vem agora
A formação do grupo de especialistas deve ocorrer nos próximos meses, segundo declarações da ministra. Não há prazo definido para a conclusão dos trabalhos nem para a votação de uma lei específica no parlamento norueguês. O que se sabe é que a proposta já está na agenda política do país.
Enquanto a Noruega avança com sua regulamentação, outras jurisdições observam. A União Europeia, que já discute regras para inteligência artificial, pode incorporar esse tema ao seu pacote legislativo. Se a tendência se consolidar, os óculos com câmera podem se tornar um produto de nicho, restrito a usos profissionais e sob condições rígidas.
O caso norueguês mostra que a tecnologia não avança sem freios. A pergunta agora é se outros países terão a mesma coragem de impor limites.
