Term Sheet: o que é e as cláusulas essenciais
Entenda cada cláusula de uma carta de intenções de investimento antes de assinar.
Um fundador passa três meses em reuniões com um fundo.
Recebe, enfim, um PDF de cinco páginas: valor, valuation e uma lista de cláusulas em inglês técnico.
Assinar parece o passo óbvio.
Só que é nesse documento, e não no contrato final, que se decide quem manda na empresa depois do aporte. ## O que é um term sheet, tecnicamente Term sheet é uma carta de intenções que resume os termos comerciais e jurídicos de um investimento antes da formalização.
Ele não transfere dinheiro nem cotas.
Serve como roteiro para o contrato definitivo, que costuma ser um contrato de investimento, de mútuo conversível ou de compra de participação.
A característica mais mal compreendida: a maior parte de um term sheet padrão não é vinculante.
O jurídico brasileiro trata o documento como pré-contrato na maioria dos casos.
Só algumas cláusulas costumam ter força obrigatória desde a assinatura, geralmente confidencialidade, exclusividade e lei aplicável.
O resto é compromisso moral, embora a quebra gere dano reputacional dentro da rede de investidores. ## Cláusulas econômicas: quanto você entrega **Valor do aporte e valuation.** O term sheet define quanto o fundo investe e qual o valuation pré-money (antes do dinheiro entrar) e pós-money (depois).
A confusão entre os dois é o erro mais comum.
Um aporte de R$ 1 milhão em um pré-money de R$ 9 milhões resulta em 10% para o investidor, não 11%. **Liquidação preferencial.** Define quanto o investidor recebe primeiro em uma venda da empresa.
O padrão de mercado é a preferência de 1x, ou seja, ele recupera o valor investido antes da divisão.
Preferências de 2x ou 3x significam que o fundador só vê dinheiro depois que o investidor multiplica o aporte, o que muda radicalmente o retorno em saídas modestas. **Cláusula de anti-diluição.** Protege o investidor caso uma rodada futura saia com valuation menor (down round).
A versão total ratchet é a mais agressiva e pode dizimar a participação dos fundadores.
A versão weighted average é mais equilibrada e predomina nas negociações. **Direito de preferência (pro rata).** Garante ao investidor a opção de acompanhar rodadas futuras para não ser diluído.
É cláusula razoável e comum. ## Cláusulas de controle: quanto você mantém Aqui o term sheet pesa mais que o valuation. **Composição do conselho.** O documento define quantas cadeiras o fundo ocupa.
Um conselho de três assentos com um do investidor já cria poder de veto em decisões estatutárias. **Matérias sujeitas a veto.** Lista as decisões que exigem aprovação do investidor: nova rodada, venda de ativos, contratação de executivos, orçamento.
Uma lista curta é saudável.
Uma lista que inclui contratações do dia a dia transforma o fundador em gestor sem autonomia. **Drag along e tag along.** O drag along obriga os sócios minoritários a vender junto se o majoritário fechar a venda da empresa.
O tag along garante ao minoritário o direito de sair nas mesmas condições.
Fundadores normalmente querem tag along; investidores querem drag along.
Os dois no mesmo documento exigem leitura cuidadosa das condições. **Vesting de fundadores.** O padrão de mercado é quatro anos com cliff de um ano: o fundador só consolida a fatia gradualmente e perde o que não consolidou se sair antes.
Isso protege a empresa de um sócio que abandona o projeto no sexto mês. ## Cláusulas que já valem na assinatura Três cláusulas costumam nascer vinculantes.
Confidencialidade: nenhuma das partes divulga termos e dados da negociação.
Exclusividade (no-shop): o fundador se compromete a não negociar com outros investidores por um prazo determinado, normalmente entre 30 e 90 dias.
Lei aplicável e foro: define onde um eventual litígio será resolvido.
Em operações com fundos estrangeiros, é comum a escolha de jurisdição fora do Brasil.
Durante o no-shop, o fundador fica sem alternativa de captação.
O prazo precisa caber na realidade de caixa da empresa. ## Onde a negociação realmente acontece Valuation é a cláusula que mais consome energia e a que menos define o resultado de longo prazo.
O que decide se o fundador ainda tem uma empresa interessante no fim é o conjunto de liquidação preferencial, anti-diluição e vetos.
Um valuation alto com preferência de 2x e veto amplo pode valer menos, para o fundador, do que um valuation menor com termos limpos.
Antes de assinar, três leituras obrigatórias: quem decide, quanto cada parte recebe em uma venda de R$ 20 milhões, e o que acontece em uma rodada futura com valor menor.
Se as três respostas forem aceitáveis, o term sheet está pronto. ## FAQ **Term sheet tem validade jurídica?** Depende da cláusula.
As de confidencialidade, exclusividade e foro geralmente têm.
As econômicas costumam ser não vinculantes até o contrato definitivo. **Preciso de advogado para analisar?** Sim, e de um com experiência em venture capital.
As cláusulas usam terminologia padronizada no mercado internacional, e a leitura correta evita concessões irreversíveis na rodada seguinte.
