Por que o private equity está perdendo para os mercados públicos
Juros altos e valuations de 2020-21 derrubam a tese de retorno superior
O que aconteceu
O private equity construiu sua reputação sobre uma promessa simples: entregar aos investidores retornos melhores que os dos mercados públicos, enquanto oferecia a empreendedores como Dan Namerow saídas que mudavam suas vidas. Esse roteiro, porém, encontrou um mercado diferente. Segundo a Bloomberg, o aumento das taxas de juros tornou mais difícil justificar aquisições financiadas por dívida, e negócios fechados nos valuations de pico de 2020 e 2021 se tornaram mais difíceis de vender.
O professor Steven Kaplan, da Universidade de Chicago Booth, afirma que os fundos de buyout americanos superaram amplamente os mercados públicos por décadas, mas que esse padrão se inverteu desde 2019. A PitchBook, por sua vez, reporta que o acúmulo de empresas mantidas por firmas de private equity subiu para mais de 33 mil. O resultado é um ambiente mais duro, em que as gestoras passam a ser avaliadas menos pela alavancagem e pela expansão de múltiplos, e mais pela capacidade real de melhorar os negócios que compram.
Contexto
Durante anos, o modelo funcionou com juros baixos: o capital barato permitia comprar empresas com alta dose de dívida, impulsionar a eficiência, expandir múltiplos e vender por um preço maior. Esse ciclo dependia de condições de crédito frouxas e de mercados de saída aquecidos. Quando os juros subiram, o custo do endividamento disparou, e as empresas adquiridas no pico da euforia ficaram com valuations que o mercado atual não aceita. O backlog de 33 mil empresas mostra a dimensão do travamento: os fundos estão segurando ativos por mais tempo, pressionando a distribuição de retornos aos investidores.
Por que importa
Para investidores institucionais, como fundos de pensão e endowments, o private equity é uma classe de ativos com promessa de prêmio sobre as ações. Se essa promessa se rompe, o dinheiro pode migrar para mercados públicos ou para outras estratégias. Para empreendedores, a mudança significa menos oportunidades de saída do tipo vivida por Dan Namerow. A indústria, que se orgulhava de ser um atalho para liquidez e crescimento, precisa agora provar que agrega valor de verdade às empresas — e não apenas que sabe usar alavancagem.
Impacto
No curto prazo, as firmas de private equity vão precisar segurar ativos por mais tempo ou aceitar retornos menores em vendas apressadas. No médio prazo, é esperada uma consolidação do setor, com gestoras menores sendo absorvidas ou saindo do mercado. O backlog de 33 mil empresas também cria pressão para write-downs e reavaliações de portfólio, o que pode afetar a arrecadação de novas rodadas de fundos. Investidores devem olhar com mais cautela para desempenhos ajustados ao risco e ao ciclo de juros.
O que muda
O antigo playbook do private equity está sendo substituído. A ênfase em engenharia financeira — leverage, múltiplos e arbitragem de valuation — perde espaço para o trabalho operacional: gestão de equipes, digitalização, eficiência de processos e crescimento orgânico. Os fundos que sobreviverem serão aqueles capazes de mostrar que podem melhorar os negócios que compram, e não apenas empacotá-los para uma revenda rápida.
O que vem agora
O mercado observa se as taxas de juros vão ceder a ponto de destravar o backlog de 33 mil empresas, ou se haverá uma onda de vendas forçadas e IPOs a valuations menores. As gestoras terão de prestar contas a investidores que já não aceitam a velha narrativa de retorno superior. A resposta, na visão de Kaplan e da PitchBook, está na capacidade de transformar operações — não na sorte do ciclo financeiro.
