Queda da Nvidia na sexta: o que o Fed tem a ver com isso
Jim Cramer liga a reversão das ações ao petróleo e à política do banco central dos EUA
O que aconteceu
As ações da Nvidia encerraram a sexta-feira, 28 de agosto, cotadas a US$ 217,55, após tocarem US$ 229,26 no início do pregão, conforme o colunista Jim Cramer da CNBC. O recuo de 4,6% veio um dia depois de um salto de quase 9%, que havia sido impulsionado pelos resultados trimestrais divulgados na quarta-feira. Em cinco horas de negociação, cerca de US$ 24 bilhões em valor de mercado evaporaram, segundo estimativa de Cramer em sua coluna para assinantes do Investing Club.
A queda da Nvidia na sexta-feira ocorreu depois de a empresa reportar um trimestre considerado magnífico pelos analistas. O movimento de alta na quinta-feira foi forte, mas o de baixa na sexta foi ainda mais intenso, apagando mais da metade do avanço do dia anterior. O jornalista comparou o padrão com o que aconteceu com a Intel em julho, quando a ação subiu no after-hours após a divulgação de resultados e despencou no pregão seguinte.
Contexto
A reversão da Nvidia não aconteceu no vácuo. Jim Cramer, em sua coluna de domingo, 30 de agosto, explora a ligação entre a ação da empresa, o mercado de petróleo e a política do Federal Reserve. O argumento central é que o banco central dos EUA, ao manter os juros em níveis elevados, pressiona a avaliação de empresas de tecnologia de alto crescimento. Quando o mercado de energia sobe, como ocorreu na semana passada, a preocupação com inflação se intensifica, o que reduz as chances de corte de juros e derruba ações como as da Nvidia.
A situação lembra o caso da Intel em julho. A fabricante de chips saltou no after-hours após reportar um trimestre forte, mas afundou no dia seguinte. Cramer disse que o padrão foi "ridiculamente similar", embora a Intel tenha caído na primeira sessão após o resultado, enquanto a Nvidia resistiu até a sexta-feira.
Outro elemento do contexto é o fundo hedge Situational Awareness, comandado por Leopold Aschenbrenner. O fundo, que apostou em hardware de IA contra software, viu suas posições desmoronarem na semana passada, quando a Salesforce subiu forte. Cramer questionou a tese do "SaaSpocalypse", que previa o fim das empresas de software como serviço, e observou que Workday, ServiceNow e Salesforce entregaram trimestres decentes.
Por que importa
A Nvidia é o termômetro do setor de IA. Quando a ação cai 4,6% em um dia, o impacto se espalha por todo o mercado de tecnologia, incluindo fornecedores de memória, fabricantes de servidores e empresas de software que dependem de GPUs. Para investidores brasileiros que detêm posições em BDRs ou fundos internacionais, a volatilidade significa que um trimestre forte não garante alta sustentada, especialmente em um ambiente de juros altos.
A ligação com o Fed, apontada por Cramer, é crucial. Se o banco central americano não cortar os juros em setembro, como o mercado passou a duvidar após a alta do petróleo, as ações de crescimento tendem a sofrer. Isso afeta diretamente o apetite por risco global, incluindo o fluxo de capital para mercados emergentes como o Brasil.
O caso também expõe o risco de movimentos amplificados por posições vendidas. Cramer sugeriu que o fundo Situational Awareness pode ter pressionado as ações de software com vendas a descoberto agressivas, algo que ele comparou aos efeitos da revogação da regra do uptick pela SEC em 2007, que facilitou a derrubada de ações de bancos durante a crise financeira.
Impacto
No curto prazo, a reversão da Nvidia deve aumentar a cautela entre investidores de tecnologia. A queda de 4,6% na sexta-feira erodiu a confiança que o salto de 9% de quinta havia criado. Empresas expostas ao ecossistema de IA, como fornecedoras de chips e provedores de nuvem, podem ver suas ações mais voláteis nas próximas semanas.
O mercado de petróleo também influencia. Se o preço do barril continuar subindo, a inflação americana pode acelerar, o que reduziria a probabilidade de cortes de juros pelo Fed. Isso pressionaria ainda mais as ações de alto múltiplo, como a Nvidia, que negocia a um preço que embute expectativas de crescimento agressivo.
Para o setor de software, a semana passada mostrou que a tese de colapso das empresas de SaaS não se materializou. Workday, ServiceNow e Salesforce entregaram resultados decentes, o que contradiz a narrativa do "SaaSpocalypse". Isso pode levar fundos como o Situational Awareness a reavaliarem suas posições vendidas.
O que vem agora
A Nvidia deve ser negociada com atenção redobrada nas próximas sessões. Os investidores acompanharão os indicadores econômicos americanos, especialmente os dados de inflação e emprego, para calibrar as expectativas sobre o Fed. A próxima reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) está marcada para meados de setembro, e qualquer sinal sobre juros mexerá com o preço da ação.
Jim Cramer, em sua coluna de domingo, indicou que a ligação entre Nvidia, petróleo e Fed é o tema que ele estará monitorando. Para quem está posicionado em tecnologia, a recomendação implícita é diversificar e não assumir que um resultado forte garante alta no curto prazo.
No Brasil, investidores acompanham o efeito contágio. A B3 e os BDRs de tecnologia costumam seguir o humor de Wall Street, e um Fed mais hawkish tende a fortalecer o dólar, o que impacta também o Ibovespa. A recomendação editorial é manter o foco em fundamentos e evitar decisões baseadas em oscilações diárias.
O que vem agora
A Nvidia deve divulgar novamente resultados apenas no fim do trimestre, mas a repercussão do movimento de sexta-feira deve continuar. Os próximos dados de inflação dos EUA, previstos para a primeira quinzena de setembro, serão o termômetro para o Fed. Jim Cramer disse que voltará ao assunto na próxima semana, explorando a ligação entre o preço do petróleo e as decisões do banco central americano.
