Rajan diz que Fed deve subir juros para conter inflação
Ex-presidente do banco central indiano afirma que condições financeiras ainda não são restritivas.
O que aconteceu
O ex-presidente do Reserve Bank of India (RBI), Raghuram Rajan, declarou que o Federal Reserve precisa subir os juros para frear o avanço inflacionário. A declaração foi dada durante entrevista ao programa Insight, da Bloomberg, transmitida diretamente de Jackson Hole, no estado de Wyoming, nos Estados Unidos. O evento, que reúne banqueiros centrais e economistas do mundo todo, é palco tradicional de sinalizações sobre política monetária.
Segundo a Bloomberg, Rajan também disse que faz parte de uma força-tarefa criada para examinar o funcionamento do banco central americano. Ele afirmou que, no seu entendimento, as condições financeiras não estão restritivas neste momento. O ex-banqueiro central indiano defendeu, portanto, que o Fed continue no ciclo de aperto monetário.
As taxas de juros americanas, fixadas pelo Federal Reserve, devem subir ainda mais, na avaliação de Rajan. A inflação acelerada é o principal alvo do aperto monetário, mas o ex-chefe do RBI ressalta que o mercado ainda opera com folga. A declaração ganha peso porque Rajan integra o grupo de trabalho que estuda o próprio Fed, o que lhe dá acesso a discussões internas sobre a condução da política monetária.
Contexto
Raghuram Rajan comandou o Reserve Bank of India entre 2013 e 2016, período em que enfrentou forte pressão inflacionária no país. Na época, ele adotou uma postura dura contra a alta de preços, o que lhe rendeu reputação de hawk, ou seja, de defensor de juros altos. Ao deixar o cargo, Rajan criticou a interferência política no banco central indiano e passou a atuar como professor e comentarista de economia.
A participação na força-tarefa que examina o Federal Reserve é recente e não havia sido detalhada até a entrevista. O grupo foi montado para avaliar a estrutura de governança e as ferramentas políticas do banco central americano, depois das críticas sobre a comunicação do Fed durante o ciclo de alta de juros iniciado em 2022. Rajan, agora, usa essa posição para defender publicamente que os juros continuem subindo.
O simpósio de Jackson Hole, promovido pelo Fed de Kansas City, é o mesmo local onde, em agosto de 2025, o presidente Jerome Powell havia indicado pausa no aperto. A fala de Rajan, um ano depois, sugere que o debate sobre a inflação permanece aberto.
Por que importa
A opinião de Rajan interessa diretamente a investidores e empresas porque ele foi um dos primeiros a alertar, ainda em 2005, sobre os riscos da inovação financeira que levou à crise de 2008. Quando ele fala, o mercado ouve. A defesa de novos aumentos nos juros americanos implica custos maiores para financiamento de empresas e famílias no mundo inteiro, já que o dólar e os títulos do Tesouro dos EUA servem de referência para o crédito global.
Para quem investe em renda fixa, a sinalização de juros mais altos pressiona o preço dos títulos. Já para a Bolsa, a notícia é negativa, pois eleva o custo do capital e reduz o apetite por risco. No Brasil, a alta dos juros americanos costuma pressionar o real e a inflação, já que encarece importações e aumenta a fuga de capital para os EUA.
Impacto
O impacto de curto prazo é o fortalecimento do dólar e o ajuste nas curvas de juros nos mercados emergentes. Com o Fed apertando a política monetária, bancos centrais como o brasileiro tendem a manter ou elevar suas próprias taxas para evitar saída de recursos. A fala de Rajan também reforça a leitura de que a inflação americana não será derrotada com pausas no ciclo de alta.
O médio prazo dependerá do movimento do Fed nas próxima reuniões. O banco central americano tem reunião marcada para setembro de 2026, quando o mercado espera uma definição sobre a taxa básica. Se o Fed seguir a recomendação de Rajan, os efeitos serão sentidos nas bolsas globais e nas curvas de juros longas.
O que muda
A mudança concreta é o tom da discussão. Rajan publicamente desafia a tese de que o Fed já fez o suficiente. Ele argumenta que condições financeiras folgadas permitem que a inflação continue acelerando, o que obriga o banco central a agir com mais força. A força-tarefa da qual ele participa pode recomendar mudanças na forma como o Fed comunica suas decisões, o que alteraria a previsibilidade das políticas futuras.
O que muda também é a expectativa do mercado. A declaração de Rajan, dada a sua credibilidade, aumenta a probabilidade de o Fed surpreender com uma alta de 0,5 ponto percentual em vez de 0,25 ponto, como alguns investidores projetavam.
O que vem agora
O mercado aguarda a fala dos dirigentes do Fed no encerramento do simpósio de Jackson Hole, que ocorre até sábado, 29 de agosto de 2026. A reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) está prevista para 16 e 17 de setembro. Rajan, que segue no cargo na força-tarefa, deve participar das discussões finais do grupo nos próximos meses. A Bloomberg acompanha o desdobramento da fala do ex-presidente do RBI e os efeitos nas projeções de juros.
