Republicanos defendem proibição de negociação de ações no Congresso enquanto Trump opera milhões

Medida aprovada na Câmara em julho não atinge o presidente, que mantém carteira com milhões em negociações

Por Marcos Guimarães9 set 2026
Republicanos defendem proibição de negociação de ações no Congresso enquanto Trump opera milhões

O que aconteceu

Na abertura da convenção republicana em Dallas, na quarta-feira, a deputada Anna Paulina Luna, da Flórida, é uma das oradoras que devem pedir restrições à negociação de ações de parlamentares. O evento tem um dia de foco em "Integridade de Governo". A defesa ocorre menos de dois meses depois de a Câmara, controlada pelos republicanos, ter aprovado o Stop Insider Trading Act, em julho, por 232 votos a 198. O projeto impede membros do Congresso de comprar ações individuais durante o mandato, mas permite manter os ativos existentes e vender após comunicar a intenção com pelo menos sete dias de antecedência. As regras valem apenas para o Legislativo, não para o presidente.

Enquanto isso, Donald Trump mantém uma exposição financeira incomum para um chefe de Executivo. Segundo análise da CNBC de sua declaração financeira anual, ele reportou ao menos US$ 858 milhões em ativos e mais de 21 mil negociações em 2025, distribuídas em oito contas. Durante todo o primeiro mandato, ele havia declarado cerca de 500 operações. Só em junho, foram 1.051 transações, com valores entre US$ 78,1 milhões e US$ 263,1 milhões. A carteira comprou e vendeu ações, títulos e fundos negociados em bolsa, incluindo movimentações de milhões envolvendo Meta, Berkshire Hathaway, Visa e Mastercard, além de até US$ 50 mil na SpaceX, que abriu capital recentemente.

Contexto

O Stop Insider Trading Act é a primeira grande restrição à negociação de ações de parlamentares em anos. Ele foi apresentado como medida de integridade, mas não se aplica ao presidente. Essa lacuna ganha contornos práticos quando se observa a atividade de Trump. A CNBC reportou na quarta-feira que os nove maiores investimentos do presidente em petróleo e gás tiveram ganho estimado de US$ 1,5 milhão a US$ 4,4 milhões entre a véspera da guerra com o Irã e 31 de agosto, enquanto suas contas continuavam comprando e vendendo papéis do setor de energia durante o conflito. Não há evidência, segundo a CNBC, de que Trump tenha direcionado as negociações, usado informação privilegiada ou moldado políticas para beneficiar seus ativos.

A Trump Organization afirmou que instituições financeiras externas têm total discrição sobre as decisões de investimento, com forte uso de estratégias automatizadas. A Casa Branca disse que Trump não pode direcionar transações individuais e que "não há conflitos de interesse". Ainda assim, o presidente é beneficiário dos ativos e se beneficia quando eles se valorizam.

Por que importa

A defesa republicana do banimento para o Congresso, enquanto o chefe do Executivo mantém uma carteira de milhões em negociação, cria uma contradição difícil de ignorar. O projeto aprovado na Câmara não alcança Trump, que toma decisões com impacto direto em setores onde investe, como petróleo e gás. Para o eleitor, a mensagem anticorrupção perde força quando a regra proposta não cobre o principal agente público do país. Na prática, se a lei for aprovada, congressistas terão de abrir mão de compras de ações individuais, mas o presidente seguirá livre para operar.

Impacto

A curto prazo, a pauta pode render dividendos políticos na convenção, mas expõe os republicanos a críticas de hipocrisia. No mercado, a falta de limites para o presidente mantém a atenção sobre a transparência de seus investimentos. A análise da CNBC mostra que, mesmo sem indício de ilegalidade, o volume e a temporalidade das operações de Trump levantam questionamentos sobre conflitos de interesse. A diferença entre as regras propostas para o Congresso e a ausência de regra para a Presidência é um ponto que tende a dominar o debate se o projeto avançar no Senado.

O que muda

Se o Stop Insider Trading Act virar lei, parlamentares não poderão mais comprar ações individuais durante o mandato. Quem já tem papéis poderá mantê-los e vendê-los, com um aviso prévio de sete dias. O texto não altera em nada a situação de Trump, que segue com sua carteira gerida por terceiros. A novidade, por ora, é a sinalização de que o partido quer transformar a proibição em pauta central de integridade, mesmo com o presidente operando milhões.

O que vem agora

A convenção republicana segue com as falas sobre integridade na quarta-feira. O projeto de lei precisa ser analisado no Senado, e não há prazo definido para votação. Enquanto isso, a atividade de investimento de Trump permanece sob escrutínio, e novas análises de suas declarações podem surgir. A oposição já pode usar a disparidade entre a regra proposta e a prática presidencial como argumento em uma eventual campanha.

Fontes

  • CNBC Technology: Republicans to tout congressional stock-trading ban at midterm convention as Trump trades (https://www.cnbc.com/2026/09/09/trump-republicans-congress-stock-trading-ban-midterm-convention.html)