Traders elevam apostas de alta em ações do Brasil com corrida eleitoral mais acirrada

Com liderança menor, investidores compram calls para aproveitar possível rali

Por Marcos Guimarães27 ago 2026
Traders elevam apostas de alta em ações do Brasil com corrida eleitoral mais acirrada

O que aconteceu

Traders aumentaram posições compradas em opções de compra, as chamadas calls, ligadas a índices e ações do Brasil, conforme mostram dados de mercado divulgados pela Bloomberg em 27 de agosto de 2026. O movimento indica que parte do mercado aposta em um rali da bolsa brasileira antes da eleição presidencial, que deve ocorrer em outubro daquele ano.

Segundo a reportagem da Bloomberg, a alta na demanda por calls se intensificou em meio a sinais de que a corrida eleitoral será mais disputada do que o esperado. A vantagem de Lula, ex-presidente e candidato do PT, encolheu nas pesquisas recentes, o que abre espaço para um cenário de segunda volta mais imprevisível e, na visão de muitos investidores, menos arriscado para os ativos locais.

As opções de compra são instrumentos que dão ao comprador o direito de adquirir um ativo por um preço fixo em uma data futura. Quando os traders compram calls, eles estão se posicionando para uma alta do mercado. A procura por esses contratos ligados ao Ibovespa e a ações de empresas brasileiras subiu de forma consistente nas últimas duas semanas, segundo a Bloomberg.

Contexto

O cenário que explica esse movimento começa meses antes. Desde o início de 2026, Lula aparecia como franco favorito na maioria das pesquisas de intenção de voto, com vantagem de dois dígitos sobre os principais concorrentes. Essa vantagem, no entanto, começou a derreter ao longo do segundo trimestre, especialmente depois de debates e de mudanças na dinâmica econômica interna.

Parte do mercado interpreta a liderança folgada de Lula como um fator negativo para os ativos brasileiros, dado o histórico de intervencionismo e a preocupação com a trajetória fiscal. Com um cenário de disputa mais acirrada, investidores enxergam mais equilíbrio de forças e possibilidade de que o vencedor precise negociar com um Congresso dividido, o que reduziria o risco de medidas mais radicais.

A Bloomberg aponta que o aumento das calls também está relacionado a uma melhora na percepção global de risco. O índice de volatilidade implícita das opções brasileiras caiu nas últimas semanas, tornando os contratos mais baratos e atraentes para quem quer se proteger ou especular sem pagar caro.

Por que importa

Para o investidor brasileiro, o movimento dos traders estrangeiros é um termômetro importante. Quando os calls ganham volume, isso costuma sinalizar que grandes fundos globais estão se preparando para um rali. Se as apostas se confirmarem, a bolsa brasileira pode ter ganhos expressivos no curto prazo, beneficiando quem já está posicionado.

Para o mercado como um todo, a leitura é de que a eleição deixou de ser vista como risco extremo e passou a ser encarada como oportunidade. A queda nas pesquisas de Lula, paradoxalmente, alivia parte da pressão que pesava sobre o real e sobre os papéis de empresas estatais, como Petrobras e Banco do Brasil, que historicamente reagem às perspectivas de política econômica.

Quem perde nesse cenário são os investidores que apostaram em queda ou que mantiveram posições defensivas demais. O custo de oportunidade de ficar fora do rali pode ser alto, especialmente com a entrada de fluxo estrangeiro prevista para as próximas semanas.

Impacto

O impacto mais imediato é o aumento da liquidez nas opções brasileiras. A Bloomberg relatou que o volume de contratos negociados em calls do Ibovespa atingiu o maior nível desde o início do ciclo eleitoral, com mais de 120 mil contratos por dia em média na última semana de agosto. Esse movimento já se reflete nos preços, com o prêmio das calls subindo mesmo antes de o rali acontecer.

Outro efeito é a valorização antecipada de setores mais sensíveis à política. Papéis de bancos e de empresas de infraestrutura registraram alta de 2% a 4% no mesmo período, segundo dados de mercado. Se a tendência se mantiver, é provável que o Ibovespa volte a testar máximas históricas antes da votação.

No médio prazo, o movimento muda a composição do capital estrangeiro no país. Fundos que haviam reduzido exposição em 2024 e 2025 começam a reposicionar suas carteiras, com fluxo líquido positivo de mais de US$ 5 bilhões em derivativos somente no mês de agosto, de acordo com estimativas de corretoras citadas pela Bloomberg.

O que muda

A principal mudança é a percepção do risco eleitoral. Antes, o mercado trabalhava com a hipótese de vitória tranquila de Lula e de políticas que poderiam pressionar o câmbio e a inflação. Agora, com a corrida apertada, o cenário base incorpora uma disputa renhida e um eventual governo com menos margem para aprovar mudanças radicais.

Isso altera também a estratégia de hedge. Em vez de comprar proteção contra queda, os traders estão comprando exposição a alta, o que inverteu o posicionamento dominante desde 2025. O índice de put/call, que mede a relação entre opções de venda e de compra, caiu para o menor nível em dois anos, segundo a Bloomberg.

Para o investidor local, o recado é de atenção. O movimento dos traders não é garantia de resultado, mas sinaliza que o consenso de mercado sobre a eleição está mudando. Quem monta estratégias baseadas em liderança de Lula precisa revisar os cenários.

O que vem agora

Os próximos passos do mercado dependerão dos números das pesquisas que serão divulgadas nas próximas semanas. A Bloomberg aponta que os analistas monitoram de perto as intenções de voto nos estados do Sudeste, que concentram o maior peso eleitoral e onde a vantagem de Lula encolheu mais rápido.

Além disso, a temporada de balanços do terceiro trimestre e a decisão de política monetária do Banco Central, prevista para setembro, podem dar mais direção ao mercado. Se a inflação continuar sob controle, o BC pode sinalizar corte de juros, o que seria mais um combustível para o rali.

Nas próximas semanas, os traders devem manter o ritmo de compra de calls, especialmente se a disparidade nas pesquisas continuar diminuindo. O primeiro turno está marcado para outubro, e até lá a volatilidade deve permanecer elevada, mas com viés de alta para os ativos brasileiros.