Trump diz que economia dos EUA pode crescer 20% e pressiona Fed
Presidente afirma que crescimento forte não gera inflação e defende juros menores; Fed decide na próxima reunião
O que aconteceu
O presidente Donald Trump afirmou, na segunda-feira (31 de agosto de 2026), que a economia dos Estados Unidos pode crescer a taxas de 14%, 15%, 16% e até 20%. A declaração ocorreu durante um evento no Salão Oval da Casa Branca para anunciar acordos de redução de preços de medicamentos prescritos. Trump argumentou que o sucesso no crescimento não causa inflação e que, por isso, o Federal Reserve não deveria elevar as taxas de juros mesmo diante de uma expansão acelerada.
O Fed manteve sua taxa básica em 3,5% a 3,75% em julho. Três dirigentes votaram contra a decisão e defenderam um aumento de 0,25 ponto percentual. Muitos analistas de mercado esperam que o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) eleve os juros na próxima reunião, marcada para setembro.
Trump voltou a defender que os EUA tenham as menores taxas de juros do mundo. Em resposta a uma pergunta sobre a possibilidade de alta pelo Fed, o presidente disse: "No passado, se anunciássemos números bons, os juros caíam. Agora, se você anuncia números bons, os juros sobem, porque eles têm muito medo da inflação."
Contexto
O crescimento de 20% citado por Trump seria praticamente inédito na história recente dos EUA. O Bureau of Economic Analysis (BEA), órgão do governo americano, calcula o PIB real desde 1947. Nesse período, apenas um trimestre registrou expansão anualizada igual ou superior a 20%: o terceiro trimestre de 2020, quando a economia cresceu a uma taxa anualizada de 34,9%.
Aquele número, no entanto, foi um efeito estatístico da reabertura das empresas após os lockdowns da Covid-19. Um trimestre antes, o PIB havia caído a uma taxa anualizada de 28%. O segundo maior crescimento da série histórica foi no primeiro trimestre de 1950, com 16,7%, impulsionado pelo fim da Segunda Guerra Mundial e pelo nascimento da geração baby boom.
O ritmo atual da economia americana está distante desses patamares. O PIB real cresceu a uma taxa anualizada de 1,5% no segundo trimestre de 2026, segundo a estimativa mais recente do BEA. No primeiro trimestre, a alta havia sido de 2,1%. Os dados trimestrais são expressos em taxa anualizada, ou seja, uma leitura de 20% não representaria um crescimento de 20% em apenas três meses, mas a projeção desse ritmo ao longo de um ano.
A fala de Trump ocorre em um momento de inflação acima da meta de 2% perseguida pelo Fed. É essa pressão sobre os preços que mantém os dirigentes do banco central em alerta e sustenta a expectativa de alta de juros em setembro.
Por que importa
A declaração de Trump coloca o presidente novamente em rota de colisão com a independência do Federal Reserve. Ao mesmo tempo em que afirma ser contra o aumento de juros, ele condiciona a política monetária ao desempenho do crescimento, algo que os economistas do banco central tratam com cautela.
Do ponto de vista prático, uma eventual alta de juros em setembro encarece o crédito para consumidores e empresas nos EUA. Financiamentos imobiliários, cartões de crédito e empréstimos corporativos ficam mais caros, o que tende a esfriar a atividade econômica. A pressão política de Trump busca evitar exatamente esse arrefecimento, mesmo que o crescimento forte possa realimentar a inflação.
O dado histórico citado pelo BEA mostra como a meta de 20% é irrealista no cenário atual. O único trimestre que atingiu esse nível, no auge da reabertura pós-Covid, foi um reflexo de uma reabertura atípica. Uma economia que cresce 20% ao ano de forma sustentada não é algo que os EUA tenham experimentado em quase oito décadas.
Impacto
No curto prazo, o mercado financeiro segue atento à reunião do FOMC de setembro. Se o Fed confirmar o aumento de 0,25 ponto percentual, será uma mudança em relação à decisão de julho, quando a taxa foi mantida em 3,5% a 3,75%. A avaliação de muitos analistas é que a autoridade monetária precisa manter a credibilidade no combate à inflação, mesmo com as críticas do presidente.
No médio prazo, o impacto depende do comportamento da inflação e do emprego. Se o Fed ceder à pressão política e cortar juros antes do previsto, o risco é a inflação ficar ancorada em um patamar mais alto. Se mantiver a postura atual, deve segurar o custo do dinheiro e frear o consumo.
Há também um efeito político. Trump usa os números do PIB como argumento para sua gestão econômica. Ao afirmar que o crescimento pode chegar a 20%, ele cria uma expectativa que o próprio BEA não corrobora. No segundo trimestre de 2026, a economia americana cresceu a 1,5%, um patamar bem abaixo da promessa presidencial.
O que vem agora
O próximo teste será a reunião do FOMC em setembro, quando o Federal Reserve deve decidir se sobe ou mantém a taxa básica de juros. Vários indicadores econômicos serão divulgados antes do encontro, incluindo novos dados de inflação e do mercado de trabalho. A fala de Trump não tem efeito formal sobre a decisão do comitê, mas aumenta a pressão política sobre o Fed.
O governo americano, por enquanto, não indicou nenhuma ação para intervir na política monetária. Trump, no entanto, já sinalizou que continuará defendendo juros baixos. A pressão sobre o Fed tende a crescer nos próximos meses, sobretudo se a inflação continuar acima da meta de 2% e o crescimento perder força.
