Usina de gás para data center no Texas usa turbinas menos eficientes

Projeto off-grid da big tech depende de ciclo simples, que gera mais poluição que usinas convencionais

Por Marcos Guimarães14 ago 2026
Usina de gás para data center no Texas usa turbinas menos eficientes

O que aconteceu

A Amazon adquiriu uma usina de gás em larga escala no Texas, construída para fornecer energia off-grid a um de seus data centers. O empreendimento, que ainda não está operando, já recebeu permissão para emitir até 33 milhões de toneladas de gases de efeito estufa (GEE) por ano — um volume que o coloca entre as maiores fontes de poluição climática dos Estados Unidos (WIRED).

O problema não é apenas o tamanho. A usina será equipada exclusivamente com turbinas de ciclo simples, que misturam combustível e ar em uma câmara de combustão para gerar energia, desperdiçando calor no processo. Usinas convencionais usam ciclo combinado, que adiciona uma turbina a vapor para reaproveitar esse calor e produzir mais eletricidade com menos emissões.

Segundo a WIRED, mesmo que a usina emita apenas metade do que a licença permite, ela ainda geraria mais poluição do que 78 usinas de gás natural de porte médio, conforme dados da Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA).

Contexto

A escolha por turbinas de ciclo simples não é exclusividade da Amazon. O movimento se tornou comum entre desenvolvedores de energia para data centers, que buscam geração flexível e rápida de instalar.

O material da WIRED lista outros projetos:

  • A petroleira Williams está desenvolvendo pelo menos três usinas em Ohio para a Meta, todas com ciclo simples.
  • Em Abilene, Texas, a Crusoe constrói uma usina com 39 turbinas de ciclo simples para alimentar um data center da Microsoft no campus Stargate.
  • A Google, também em um site da Crusoe no Texas, terá usina com 20 turbinas de ciclo simples no data center Goodnight.
  • Os data centers Colossus 1 e Colossus 2 da xAI, em Memphis, usam dezenas de turbinas desse tipo.

Todos esses projetos têm permissão para emitir milhões de toneladas de GEE por ano.

Por que importa

A corrida da inteligência artificial está pressionando a demanda por energia nos EUA, e data centers cada vez maiores estão sendo conectados a fontes de gás natural. A opção por turbinas menos eficientes aumenta a pegada de carbono da IA, contradizendo metas climáticas assumidas pelas próprias empresas.

A Amazon afirma que a usina no Texas fornece geração no local, "sem elevar os custos de eletricidade para as famílias texanas", além de incluir energia solar e baterias no mesmo site, e reafirma o compromisso de atingir net-zero até 2040 (WIRED). Mas os números de emissão aprovados sugerem um impacto que vai além do discurso.

Para o Brasil, o caso serve de alerta: a demanda por infraestrutura de IA cresce globalmente, e a forma como essa energia é gerada pode definir o futuro climático do setor.

Impacto

No curto prazo, usinas como a da Amazon elevam as emissões totais do setor elétrico americano, dificultando metas de redução de GEE. No médio prazo, a dependência de turbinas de ciclo simples pode tornar a expansão de data centers um dos principais vetores de poluição do país, mesmo com os avanços em renováveis.

Há também um custo econômico: turbinas menos eficientes consomem mais gás para gerar a mesma energia, aumentando a despesa operacional e transferindo parte do custo para os consumidores, ainda que a Amazon minimize o impacto tarifário.

O que vem agora

A usina da Amazon ainda precisa iniciar operação plena e ser monitorada quanto às emissões reais. Projetos semelhantes em Ohio, Texas e Tennessee seguem em desenvolvimento, com licenças ambientais em análise.

A pressão pública e regulatória deve crescer, especialmente com a EPA observando os números. A resposta das big techs será observar se promessas de net-zero serão seguidas por ações concretas na matriz energética de seus data centers.

Fonte: WIRED