Vijay Pande, ex-a16z, aposta em fundo enxuto de biotec com IA

Após gerir a maior prática de biotecnologia da a16z, ele agora faz poucas apostas por ano

Por Marcos Guimarães29 ago 2026
Vijay Pande, ex-a16z, aposta em fundo enxuto de biotec com IA

O que aconteceu

Vijay Pande deixou a prática de biotecnologia da a16z, que gerenciava cerca de US$ 4 bilhões, em junho de 2025 para fundar a VZVC, um fundo de venture capital focado em apostas concentradas. A VZVC, cofundada com o investidor Zach Werner, é significativamente menor que a estrutura anterior: Pande afirma que o fundo não faz 30 apostas por ano, mas sim um punhado de investimentos concentrados, não tem associados e depende fortemente de IA nas operações diárias.

A decisão foi um giro inesperado para quem passou mais de uma década construindo uma das maiores práticas de biotecnologia do Vale do Silício. A saída de Pande da a16z, onde ele era sócio geral, foi revelada em meados de 2025, e a nova firma opera com uma tese enxuta: menos empresas, mais foco.

Contexto

Pande não era um nome conhecido do circuito de investimentos até cerca de 12 anos atrás. Ele era professor de química em Stanford, famoso por criar o Folding@home, projeto de computação distribuída que usava PCs domésticos de milhões de voluntários como um supercomputador para pesquisas de doenças. Esse prestígio acadêmico chamou a atenção de Marc Andreessen e Ben Horowitz, que haviam evitado intencionalmente saúde e ciências da vida nos primeiros cinco anos da a16z.

Em 2014, aproximadamente, Andreessen e Horowitz decidiram que a categoria merecia uma aposta e entregaram as chaves da área a Pande. Ele cresceu a operação até gerir quase US$ 4 bilhões. Quando Pande saiu, a a16z manteve a prática, mas ele optou por um caminho mais enxuto. A VZVC, segundo ele, é construída para operar com poucos investimentos por ano, sem a burocracia de um grande fundo.

Por que importa

A mudança de estratégia de Pande reflete uma visão mais ampla sobre o futuro da biotecnologia. Ele afirma que a biologia está deixando de ser uma ciência de descoberta para se tornar uma ciência de engenharia, em que a IA tem papel central. O uso de modelos de machine learning permite identificar alvos de drogas, desenhar moléculas e até otimizar ensaios clínicos, que são a parte mais cara do processo.

Mas Pande é cético em relação a uma promessa comum no setor: a de que ensaios clínicos ficarão baratos com dados sintéticos. Em entrevista, ele classificou essa ideia como "uma aspiração", não uma realidade. O custo para chegar a ensaios clínicos tem diminuído com IA, mas a etapa clínica ainda pode custar centenas de milhões de dólares, segundo o próprio Pande.

Impacto

A abordagem da VZVC de fazer poucas apostas concentradas contrasta com a prática de fundos tradicionais que buscam diversificar com dezenas de checagens por ano. Para o mercado de biotec, isso significa que investidores podem passar a valorizar mais a profundidade do que a quantidade, especialmente em um ambiente onde capital está mais seletivo.

Outro ponto crítico levantado por Pande é a fragmentação dos dados. Diferentemente de texto, que pode ser coletado da internet, dados biológicos não podem ser simplesmente raspados. Isso faz com que quase toda empresa de biotec construa seu próprio dataset isolado, protegido por muros. Essa dinâmica pode limitar o avanço da IA em medicina, pois modelos precisam de dados amplos e acessíveis para aprender de forma eficaz.

O que muda

Se a visão de Pande se confirmar, a indústria de biotec pode ver uma mudança no modelo de desenvolvimento de drogas: menos descoberta por acaso, mais engenharia direcionada. Isso teria impacto em prazos, custos e na relação entre investidores e startups. A defesa de datasets abertos e compartilhados, em vez de propriedade fechada, é um contraponto à tendência atual e pode influenciar políticas de dados no setor.

Para a comunidade de VC, a VZVC serve de teste: é possível gerar retornos expressivos com poucas empresas se a IA for usada desde a origem? A aposta de Pande é que sim, mas ele reconhece que os ensaios clínicos continuam um gargalo financeiro e temporal.

O que vem agora

A VZVC está em seus primeiros anos de operação, e Pande não discute prazos para novos fundos ou metas específicas. Sua prioridade imediata é validar a tese de apostas concentradas em empresas que usam IA como ferramenta central de desenvolvimento. Ele também pretende seguir defendendo abertamente o compartilhamento de dados biológicos, contrariando a prática comum de manter tudo fechado.

Em paralelo, a a16z segue com sua prática de biotecnologia, agora sem Pande, o que coloca a firma em uma fase de transição no setor. O legado de Pande, tanto no Folding@home quanto na construção dos US$ 4 bilhões, continua como referência, mas o experimento da VZVC é o que vai mostrar se apostar pequeno é o caminho para transformar medicina.