De product manager a CEO: a rota subestimada de liderança em tech
Estudos focam em COO e CFO, mas habilidades de produto formam CEOs antes da média, defende líder da Paysend.
O que aconteceu
Ben Chisell, CEO da fintech Paysend, publicou uma coluna no Crunchbase News defendendo que o product management é um trampolim subestimado para a cadeira de CEO. O argumento se apoia em dois conjuntos de dados. O primeiro, um estudo contínuo que analisa todas as sucessões de CEO no S&P 500 desde 2000, aponta quatro papéis de origem: COOs, CEOs divisionais, CFOs e os líderes "leapfrog", promovidos de abaixo do C-level. O segundo, o CEO Genome Project, um estudo de dez anos, mostra que os "sprinters" — executivos que chegaram ao posto bem antes da média de 24 anos — não chegaram escalando a hierarquia, mas por movimentos ousados, como assumir uma divisão em crise ou construir algo do zero. O que os diferenciava não era o currículo, e sim um conjunto específico de habilidades: capacidade de decisão, confiabilidade, adaptabilidade e a habilidade de engajar pessoas em torno de um plano.
Contexto
O product management não aparece nas pesquisas sobre trajetórias de CEO, provavelmente porque os grandes estudos não tratam a função como categoria própria. É um papel relativamente novo, que costuma ser classificado como gestão geral ou engenharia nos bancos de dados de carreira. Mas, para Chisell, o que o trabalho exige — responsabilidade por um resultado tangível, obsessão pelo que o cliente valoriza e disposição para decisões difíceis — corresponde diretamente aos traços que o CEO Genome Project encontrou nos sprinters.
O autor escreve de experiência própria. Antes de chegar ao primeiro cargo de CEO sem passar pelas funções típicas do "kit inicial" de executivo-chefe, ele liderou produto e tecnologia em Amazon, eBay, Starling Bank e OakNorth. "Em resumo, gestão de produto é fazer um produto dar certo; ser CEO é fazer um negócio dar certo. Os ingredientes são os mesmos", escreve.
Dois exemplos conhecidos reforçam a tese. Sundar Pichai entrou no Google em 2004 liderando o product management da Google Toolbar, anos antes de se tornar CEO. Neal Mohan passou oito anos como chief product officer do YouTube antes de assumir o comando da plataforma em 2023.
Por que importa
A coluna confronta a visão dominante em conselhos e comitês de sucessão, que tendem a buscar CEOs entre COOs, CFOs e presidentes divisionais. Para o mercado brasileiro de tecnologia, a mensagem é prática: profissionais de produto, área consolidada em startups e empresas de tech, podem construir capital para o C-level sem migrar para funções tradicionais. O critério, segundo Chisell, é menos o título no crachá e mais a responsabilidade por resultados mensuráveis de negócio.
Impacto
No curto prazo, a discussão pode ampliar o radar de boards na hora de planejar sucessões, incluindo líderes de produto entre os candidatos. No médio prazo, a gestão de produto tende a ser tratada menos como função tática e mais como treinamento para liderança executiva, especialmente em empresas nas quais o produto é o centro da operação. O próprio Chisell reconhece que o escopo muda: um CEO carrega o peso do negócio, do resultado financeiro à exposição legal e regulatória, passando pelo board e pelo mercado; um PM tem um mandato mais estreito, com um produto, um roadmap e um time. Mas escopo não é o mesmo que habilidade: o cargo cresce e os músculos exercitados continuam os mesmos.
O que muda
A principal mudança proposta pela coluna é de critério: avaliar potenciais CEOs pela capacidade de entregar resultados tangíveis e engajar times em torno de um plano, e não pelo cargo anteriormente ocupado. Para quem vem de produto, isso abre uma rota alternativa ao C-level que não depende de passagens obrigatórias por finanças ou operações.
O que vem agora
Para profissionais que ambicionam o C-level, a orientação do texto é direta: gastar menos energia colecionando títulos prestigiosos e mais assumindo ownership de resultados que possam ser medidos. Do lado das pesquisas, o próximo passo esperado é que os grandes estudos de sucessão de CEO passem a desagregar o product management como categoria própria — algo que, até agora, não acontece nos datasets de carreira.
Fontes
- Crunchbase News — "Why The Product Manager To CEO Pipeline Is The Underrated Crash Course For Leadership In Tech" (https://news.crunchbase.com/workplace/tech-ceo-leadership-career-path-product-manager/)
