Yield do Treasury a 5,5% derrubaria ações, diz estrategista da SocGen
Alain Bokobza, da Société Générale, aponta o patamar em que o custo do dinheiro passa a superar o crescimento dos lucros
O que aconteceu
Alain Bokobza, head de alocação global de ativos da Société Générale (SocGen), afirmou que o yield do Treasury americano de 10 anos a 5,5% representa o limite a partir do qual os juros mais altos começam a rachar o mercado acionário. A avaliação do estrategista da SocGen foi publicada pelo Bloomberg nesta segunda-feira (7).
A lógica apresentada por Bokobza é direta: até certo ponto, o crescimento dos lucros das empresas consegue absorver o aumento do custo de captação. O yield de 5,5% do Treasury de 10 anos é, segundo o analista da Société Générale, o patamar em que essa equação se inverte. A partir dali, o custo do dinheiro deixa de ser compensado pelos resultados e passa a comprimir as valuations das ações.
Contexto
O Treasury de 10 anos é a referência global de custo de dinheiro. Ele serve de base para precificar desde empréstimos corporativos até hipotecas e o próprio valor presente das ações: quanto maior o yield, menor o valor justo dos fluxos de caixa futuros das empresas.
Bokobza ocupa a posição de head de global asset allocation na Société Générale, um dos maiores bancos de investimento da Europa, o que dá peso às suas projeções de alocação entre ações, títulos e caixa. O alerta do estrategista da SocGen chega em um momento em que o mercado acompanha de perto cada movimento do yield de 10 anos, que funciona como termômetro das expectativas de juros nos Estados Unidos.
Por que importa
O número de 5,5% funciona como um gatilho concreto para investidores. Enquanto o yield do Treasury de 10 anos ficar abaixo desse patamar, a tese de Bokobza indica que os lucros corporativos ainda sustentam as ações. Acima de 5,5%, o custo de captação vence o crescimento dos resultados e a pressão sobre as valuations começa.
Para quem aloca capital, o alerta da Société Générale sugere monitorar o Treasury de 10 anos como um nível de risco em si, e não apenas como um dado de contexto. Fundos, gestoras e investidores pessoa física com exposição a ações americanas têm no yield de 5,5% uma referência objetiva para reavaliar posições.
Impacto
Se o yield do Treasury de 10 anos se aproximar de 5,5%, o efeito esperado por Bokobza é pressão direta sobre as valuations acionárias. Empresas mais endividadas sentiriam primeiro o custo de captação mais alto, já que a diferença entre o que pagam para se financiar e o que ganham em resultados se estreita.
O efeito não ficaria restrito aos Estados Unidos. O Treasury de 10 anos é referência para mercados emergentes, incluindo o Brasil, onde o nível dos juros americanos influencia o fluxo de capital estrangeiro e o câmbio. Um yield acima do limite apontado pela SocGen tenderia a tornar ativos de risco globais menos atraentes em relação aos títulos do Tesouro americano.
O que muda
A mensagem central de Bokobza é que existe um teto para a convivência entre juros altos e bolsa. O crescimento dos lucros, que sustentou as ações enquanto o custo de dinheiro subia, perde força como contrapeso quando o yield do Treasury de 10 anos atinge 5,5%. Nesse cenário, a alocação recomendada pela Société Générale tende a ficar mais defensiva, com maior atenção a títulos e menor apetite por ações.
O que vem agora
O ponto de atenção imediato para o mercado é a trajetória do yield do Treasury de 10 anos em direção (ou não) ao patamar de 5,5% apontado por Bokobza. Dados de inflação, decisões do Federal Reserve e leilões de dívida americana devem continuar ditando o ritmo desse movimento. Enquanto o yield ficar abaixo do limite, a leitura da SocGen é de que as ações seguem sustentadas pelos lucros.
