Bessent diz a autoridades do Japão que país precisa elevar juros, diz NHK

Em conversa com o ministro das Finanças e o governador do Banco do Japão, Bessent defendeu aperto monetário; NHK citou autoridade americana

Por Marcos Guimarães1 set 2026
Bessent diz a autoridades do Japão que país precisa elevar juros, diz NHK

O que aconteceu

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, afirmou a autoridades japonesas que o Japão deve elevar as taxas de juros. A declaração foi feita em conversa com o ministro das Finanças, Satsuki Katayama, e com o governador do Banco do Japão, Kazuo Ueda, segundo reportagem da NHK publicada em 31 de agosto de 2026 e repercutida pela Bloomberg. A emissora pública do Japão citou uma autoridade americana em entrevista como fonte da informação.

A recomendação de alta de juros foi apresentada no momento em que o Banco do Japão, comandado por Kazuo Ueda, discute o ritmo de normalização da política monetária. Bessent, que assumiu o comando do Tesouro americano em 2025, defendeu que a elevação das taxas é o passo natural para a segunda maior economia da Ásia.

Contexto

O Japão passou décadas convivendo com deflação e juros negativos. O Banco do Japão encerrou a política de taxas negativas em março de 2024, um movimento histórico que marcou o início de um ciclo de aperto monetário. Em janeiro de 2025, o banco central elevou a taxa básica para 0,5%, e desde então os mercados acompanham os sinais de novos aumentos.

A pressão americana por juros mais altos no Japão não é nova no governo de Donald Trump. Bessent, ex-gestor de fundos de hedge, tem participado de reuniões com autoridades japonesas para discutir política cambial e monetária. O diferencial de juros entre Estados Unidos e Japão é um dos principais fatores que pressionam o iene, que se desvalorizou fortemente frente ao dólar nos últimos anos.

Por que importa

A declaração de Bessent ganha relevância porque mexe diretamente com o mercado global de câmbio e de títulos públicos. O iene é uma das moedas mais negociadas do mundo, e a política de juros do Banco do Japão afeta investidores de todos os continentes. Quando o BC japonês mantém taxas baixas, investidores tomam empréstimos em iene para aplicar em ativos de maior retorno em outros países, um movimento conhecido como carry trade.

Para o Japão, subir os juros torna o financiamento da dívida pública mais caro. O país tem uma das maiores dívidas do mundo em relação ao PIB, superior a 200%. Um aperto monetário mais rápido pode elevar os custos do governo e pressionar o orçamento, mas também pode fortalecer o iene e reduzir a inflação importada, que encareceu alimentos e energia nos últimos anos.

Impacto

A curto prazo, a fala de Bessent deve reforçar as apostas do mercado em uma nova alta de juros na próxima reunião do Banco do Japão. Desde o fim de 2025, economistas monitoram as declarações de Kazuo Ueda sobre o ritmo de aperto. A sinalização vinda do Tesouro americano aumenta a pressão sobre o BC japonês para agir antes do esperado.

No mercado de câmbio, a notícia pode sustentar o iene. A cotação da moeda japonesa reagiu a declarações de autoridades americanas em outras ocasiões, e o comentário de Bessent é visto como um aval para o Japão avançar com a normalização. Para investidores brasileiros, o impacto ocorre indiretamente, por meio das bolsas globais e dos juros dos títulos americanos, que tendem a cair quando o iene se fortalece.

O que muda

A posição pública de Bessent sinaliza que os Estados Unidos não vão se opor à alta de juros japonesa, ao contrário do que ocorria em momentos de tensão cambial. Isso reduz o risco de intervenções no mercado de câmbio e abre espaço para o Banco do Japão agir com mais autonomia. A mudança também indica que o Tesouro americano vê a desvalorização do iene como um problema para o comércio internacional.

O que vem agora

O Banco do Japão volta a se reunir nos próximos meses para decidir os rumos da política monetária. Analistas acompanham as declarações de Kazuo Ueda e os dados de inflação japonesa para antecipar o calendário de alta. A expectativa é que a sinalização de Bessent seja citada nos documentos das reuniões e nos relatórios dos bancos internacionais, o que pode antecipar o movimento.

A NHK não informou se houve resposta das autoridades japonesas à sugestão de Bessent. O ministro das Finanças, Satsuki Katayama, e o governador do Banco do Japão, Kazuo Ueda, não se manifestaram publicamente até a publicação desta reportagem.