Juros dos títulos dos EUA sobem por fundamentos, não por Bessent, diz HSBC

Estrategista-chefe do HSBC vê crescimento e excepcionalismo americano como motor dos yields, não desejos do secretário do Tesouro.

Por Marcos Guimarães9 set 2026
Juros dos títulos dos EUA sobem por fundamentos, não por Bessent, diz HSBC

O que aconteceu

A alta dos rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA, que tem pressionado mercados globais, é produto de fundamentos econômicos e não da influência de Scott Bessent, secretário do Tesouro americano. A afirmação foi feita por Max Kettner, chief multi-asset strategist do HSBC Bank, durante participação no programa Bloomberg Surveillance, da Bloomberg, em 9 de setembro de 2026.

Kettner foi direto ao comentar as leituras de mercado que atribuem o movimento a um desejo do Tesouro americano de ver juros mais altos. "No fim do dia, isto é fundamento, isto não é sobre o que Scott Bessent quer", disse o estrategista, segundo transcrição da Bloomberg.

O estrategista do HSBC Bank, que comanda a alocação multiasset da instituição, argumenta que os yields sobem porque a economia americana segue crescendo e o excepcionalismo americano segue intacto. Os rendimentos dos títulos de 10 anos do Tesouro americano subiram de cerca de 4% no início de 2026 para 4,47% em meados de setembro, conforme dados compilados pela Bloomberg.

Contexto

A discussão sobre os juros dos títulos dos EUA ganhou contornos políticos nos últimos meses. O mercado acompanha de perto as indicações do governo americano para a composição do Federal Reserve, após o fim do mandato do presidente da autoridade monetária, Jerome Powell, em maio de 2026.

A administração de Donald Trump, da qual Scott Bessent faz parte, indicou Kevin Hassett, ex-conselheiro econômico, para a presidência do Fed. Hassett, nomeado em março de 2026, assumiu o cargo em junho com a promessa de manter a independência do banco central, mas sua proximidade com a Casa Branca gera ruído no mercado desde então.

Por que importa

A leitura de Max Kettner, do HSBC Bank, importa por dois motivos. O primeiro é a credencial de quem fala: o strategist do HSBC Bank comanda uma das maiores operações de alocação multiasset da Europa, e suas posições influenciam gestores de fundos ao redor do mundo.

O segundo é a leitura macroeconômica. Se os juros dos EUA sobem porque a economia americana cresce e surpreende para cima, isso sugere acomodação contínua para ativos de risco como bolsas, crédito e moedas de emergentes. Na visão do estrategista do HSBC, o excepcionalismo americano com inflação contida e consumo resiliente é o fator que explica o movimento.

Para o Brasil, a leitura tem impacto direto. Um cenário em que o Fed não precise cortar juros por fraqueza econômica, mas sim por inflação associada a crescimento, muda a janela para o Banco Central do Brasil ajustar a Selic, hoje em 11,5%, segundo dados do Copom. Quanto mais tempo os juros americanos seguirem elevados, menor a folga para cortes domésticos sem pressionar o câmbio.

Impacto

A alta dos yields americanos encarece o financiamento de dívida em todo o mundo, especialmente em países emergentes como o Brasil, cujos títulos em dólar sofrem há semanas. O Credit Default Swap soberano brasileiro, medida de risco de calote, opera acima de 190 pontos desde o início de setembro de 2026, pressionado pelo cenário externo.

A indicação de que os fundamentos americanos, e não escolha política, estão por trás dos juros altos, também muda a expectativa de curto prazo. O mercado de opções de juros do CME Group, monitorado pela Bloomberg, mostra que a probabilidade de um corte de juros de 25 pontos-base pelo Fed em novembro de 2026 caiu de 67% para 39% entre julho e setembro, à medida que os dados de atividade americana surpreenderam para cima.

O que muda

A leitura de Max Kettner reduz o peso de uma tese que circulou amplamente no mercado neste ano: a de que a equipe econômica americana, na figura de Scott Bessent no Tesouro dos EUA, estaria trabalhando para forçar o Fed a manter juros mais altos, como forma de ancorar a inflação e dar espaço fiscal ao governo.

Se o principal strategist do HSBC Bank está certo, a participação de Bessent no Fed é secundária. O Tesouro americano, que sob Bessent priorizou emissões de títulos de curto prazo para reduzir custos de financiamento, enfrenta um mercado que precifica fundamentos robustos. A diferença prática: enquanto a tese política sugere reversão possível a qualquer momento, a tese fundamentalista antevê juros altos por mais tempo.

O que vem agora

A próxima data-chave para o mercado será a reunião do Federal Open Market Committee (FOMC), marcada para 29 de outubro de 2026, quando o banco central americano divulga a nova decisão de juros. Kettner não deu previsão de votos, mas sua leitura de fundamentos será testada pelos dados de inflação e emprego que saem nas próximas semanas.

O mercado também acompanha a contabilidade fiscal americana. O Tesouro, sob a gestão de Scott Bessent em sua posição no Tesouro americano, informou suprimento total de US$ 297 bilhões em títulos no terceiro trimestre de 2026, número ligeiramente abaixo do trimestre anterior. A equipe econômica liderada por Bessent observa que a dívida americana segue em trajetória de alta, mas nega que os yields reflitam política.

Os comentários completos de Max Kettner estão disponíveis no site da Bloomberg, na seção vídeos, vinculados ao Bloomberg Surveillance.