Disney teve projeto de luta estilo Smash Bros, confirma ex-artista

Ken Christiansen, ex-artista da Disney Interactive, revela que Kingdom Hearts inspirou um crossover de luta que nunca saiu do papel.

Por Marcos Guimarães2 set 2026
Disney teve projeto de luta estilo Smash Bros, confirma ex-artista

O que aconteceu

A Disney Interactive desenvolveu, em algum momento entre o final dos anos 2000 e o início dos anos 2010, um jogo de luta crossover que reuniria personagens de Tarzan, O Rei Leão e Planeta do Tesouro no estilo do clássico da Nintendo, Super Smash Bros. A informação foi confirmada em 1º de setembro por Ken Christiansen, ex-artista conceitual da Disney Interactive, em entrevista ao site Time Extension.

Christiansen já havia alimentado essa especulação em 2013, quando publicou em seu portfólio online uma série de esboços mostrando personagens da Disney em batalhas uns contra os outros. Na nova entrevista, ele afirmou que o conceito surgiu a partir de uma proposta dos produtores, que queriam aplicar a mesma lógica de Kingdom Hearts ao universo de brinquedos.

"Desde que Kingdom Hearts já meio que quebrou esse molde, os produtores diziam: 'Ei, e se a gente dissesse que são action figures e usássemos a mesma premissa de Toy Story, mas com eles lutando entre si?'", explicou Christiansen. "Aí a gente teria todos esses bonecos de personagens da Disney, do Tarzan, do Rei Leão e do Planeta do Tesouro, e seria uma coisa meio Smash Brothers. O título do conceito era 'Disney's Action Figure Face Off'."

O projeto, no entanto, morreu na fase de protótipo. De acordo com o Time Extension, a Disney optou por descartar a ideia em favor de jogos tie-in de filmes e séries de TV.

Contexto

A ideia de um crossover de luta só foi possível porque Kingdom Hearts, lançado em 2002, quebrou uma barreira interna na Disney. Antes dele, executivos da empresa relutavam em misturar universos diferentes. "Uma das razões pelas quais Kingdom Hearts foi tão difícil de começar foi porque a Disney relutava muito em ter a possibilidade de cruzar O Rei Leão com o mundo de A Pequena Sereia", relembrou Christiansen. "Esse era o principal ponto de atrito na Disney América. Eles não conseguiam superar isso."

A relutância era tão forte que, segundo o artista, houve "um pouco de bate-cabeça" entre os criativos e a diretoria. O projeto só avançou porque os artistas, produtores e outros envolvidos acreditavam que a ideia era "a maior do mundo". Kingdom Hearts acabou se tornando um sucesso, mas o mesmo não se aplicou ao projeto de luta.

Mesmo assim, o conceito de "Action Figure Face Off" mostrava ambição. As artes conceituais divulgadas em 2013 revelavam confrontos 1v1 entre oito personagens: Capitão Gancho vs Fera, Xerife de Nottingham vs Rei Louie, Úrsula vs John Silver, e Rainha de Copas vs Rei Cornudo. Alguns são escolhas surpreendentes, como o Rei Cornudo, vilão de O Caldeirão Mágico, filme de 1985.

Por que importa

A revelação importa porque mostra como a Disney, mesmo após o sucesso de Kingdom Hearts, ainda tinha dificuldade em apostar em jogos originais. A empresa preferiu, na época, focar em títulos amarrados a lançamentos cinematográficos, estratégia que a levou a fechar seus estúdios de jogos em 2016. Se o projeto tivesse avançado, a Disney poderia ter entrado no crescente mercado de fighting games com um produto próprio.

Para fãs de Kingdom Hearts e de jogos de luta, fica a frustração: os esboços de Christiansen mostram um game com personagens icônicos em batalhas que nunca aconteceram de verdade. Além disso, a história reforça o quanto a burocracia criativa da Disney podia travar ideias que, hoje, parecem óbvias.

Impacto

A curto prazo, a notícia reacende o debate sobre o que a Disney poderia ter feito no espaço de jogos. Em 2023, a empresa lançou Disney Illusion Island, um game de aventura co-op que recebeu boas críticas, e em 2024 anunciou uma parceria com a Epic Games para um universo aberto baseado em suas franquias, com investimento de US$ 1,5 bilhão. A revelação de Christiansen mostra que a Disney já pensava em crossovers antes dessa onda atual.

Também chama atenção o fato de que o projeto nunca passou do protótipo. Segundo o Time Extension, não há registros de que a Disney tenha considerado retomá-lo depois de arquivado. Para os oito personagens escolhidos, o game teria sido uma rara aparição em jogos de luta, algo que nem mesmo os jogos oficiais da Disney fizeram depois.

O que muda

Nada muda em termos de lançamentos, mas a informação muda a percepção do histórico da Disney Interactive. O estúdio, que já tinha produzido Epic Mickey (2010) e Disney Infinity (2013), demonstrou com esse projeto que considerava um jogo de luta para competir com Super Smash Bros. Brawl, lançado para Wii em 2008. Ainda assim, a empresa nunca confirmou oficialmente o desenvolvimento desse crossover.

Ken Christiansen, por sua vez, segue trabalhando na indústria. Ele participou de projetos como Disney Infinity e outros títulos da Disney Interactive. A entrevista ao Time Extension serve como um registro de uma era em que a Disney tentava, aos trancos e barrancos, entender seu próprio potencial nos games.

O que vem agora

A tendência é que o projeto permaneça no limbo. A Disney não comentou a revelação até o momento. Fãs ainda podem torcer para que as artes conceituais sejam um dia exibidas em algum museu ou coletânea, mas a chance de um jogo completo é considerada nula.

A estratégia atual da Disney para jogos, com parcerias com Epic Games e a próxima entrada no metaverso, indica que a companhia prefere experiências persistentes a um jogo de luta fechado. O caso "Action Figure Face Off" fica como exemplo de como uma boa ideia pode ser engavetada por falta de alinhamento interno.

O ex-artista Ken Christiansen, autor da revelação, permanece a principal fonte sobre o projeto. Em sua entrevista, ele demonstrou carinho pela ideia, dizendo que todos os criativos a achavam "a maior ideia do mundo". Para os entusiastas da Disney, resta imaginar o que teria sido um jogo com Úrsula enfrentando John Silver em um ringue.