Druckenmiller critica plano de Bessent de recomprar títulos dos EUA

Bilionário que formou o secretário do Tesouro discorda de gastar bilhões em buyback de bonds

Por Marcos Guimarães25 ago 2026
Druckenmiller critica plano de Bessent de recomprar títulos dos EUA

O que aconteceu

Stanley Druckenmiller, bilionário gestor de fundos e uma das vozes mais respeitadas do mercado de renda fixa, classificou como um erro o programa de recompra de títulos do Tesouro dos EUA conduzido por Scott Bessent, secretário do Tesouro. O plano, que prevê o gasto de bilhões de dólares na recompra de bonds americanos, foi alvo de crítica direta do investidor, que foi mentor de Bessent nos primeiros anos da carreira do atual secretário como trader de hedge fund.

A recompra de títulos, anunciada pela primeira vez em 2026 como parte de uma estratégia de gestão de liquidez e redução da volatilidade no mercado de Treasuries, foi defendida por Bessent como uma forma de melhorar o funcionamento do mercado. Druckenmiller, porém, vê a medida como um erro de política fiscal em um momento em que a dívida pública americana segue em trajetória crescente.

A crítica veio em um evento fechado, segundo a Bloomberg, e foi repercutida no mercado na mesma semana. O programa de recompras, que chegou a movimentar bilhões em operações semanais, foi desenhado para recomprar títulos com vencimentos mais antigos e pouco líquidos, mas Druckenmiller argumenta que o impacto prático não justifica o custo.

Contexto

Scott Bessent, ex-gestor de fundos e fundador da Key Square Capital Management, assumiu o comando do Tesouro dos EUA em 2026. Antes de chefiar a instituição, Bessent trabalhou no início da carreira sob a supervisão de Druckenmiller, que é conhecido por sua atuação agressiva em macroeconomia e por ter administrado a Duquesne Capital Management, fundo que devolveu bilhões aos investidores em 2010.

A relação entre os dois é antiga. Druckenmiller foi uma das primeiras referências de Bessent no mercado de capitais, e por anos os dois mantiveram contato próximo. A discordância pública, ainda que indireta, ganhou relevância porque raramente Druckenmiller comenta decisões de ex-aliados de forma tão direta.

O programa de recompra de títulos foi apresentado pelo Tesouro como uma ferramenta de eficiência de mercado, mas críticos apontam que ele também serve para abrir espaço fiscal e reduzir o custo da dívida em um cenário de juros altos. A dívida pública americana ultrapassou US$ 36 trilhões em 2025, e os pagamentos de juros se tornaram um dos maiores itens do orçamento federal.

Por que importa

A opinião de Druckenmiller importa porque ele é um dos investidores macro com o histórico mais consistente das últimas três décadas. Quando ele classifica uma política do Tesouro como erro, o mercado presta atenção, e isso pode influenciar a percepção de risco sobre os títulos americanos.

O programa de recompra de bonds, que chegou a prever a recompra de até US$ 5 bilhões por semana em alguns leilões, foi apresentado como uma medida de liquidez. Mas, para Druckenmiller, o efeito sobre a curva de juros é marginal, e o custo político e fiscal é alto. Na avaliação dele, o dinheiro gasto na recompra poderia ser usado de forma mais eficiente para reduzir a emissão de dívida nova.

Para investidores brasileiros e globais, a discussão importa porque os juros dos Treasuries são a referência para praticamente todos os ativos de risco do mundo. Uma política percebida como equivocada no Tesouro americano pode elevar a volatilidade e mudar o apetite por ativos emergentes.

Impacto

O impacto imediato da declaração de Druckenmiller foi sentido no mercado de renda fixa americano, com leve alta na volatilidade dos títulos de longo prazo nos dias seguintes à reportagem da Bloomberg. Operadores passaram a monitorar se outros investidores macro compartilham da mesma visão.

No médio prazo, o episódio pode enfraquecer a narrativa de Bessent de que o programa de recompra é uma ferramenta técnica e não uma intervenção política. Também aumenta a pressão sobre o Tesouro para divulgar mais dados sobre os custos e benefícios da operação.

O que muda

Com a crítica pública de Druckenmiller, o programa de recompra de títulos ganhou um adversário de peso no mercado. Isso pode forçar o Tesouro a reduzir o escopo das operações ou a apresentar uma justificativa mais robusta para continuar com os leilões.

A relação entre mentor e pupilo também entra em evidência. Bessent, que construiu a carreira sob a influência de Druckenmiller, agora precisa lidar com a discordância de quem foi sua principal referência profissional. Em ambientes de mercado, a leitura é que a crítica tem peso simbólico ainda maior do que o impacto técnico.

O que vem agora

O Tesouro americano não comentou oficialmente a declaração de Druckenmiller até a publicação desta reportagem. Bessent deve ser questionado sobre o assunto em suas próximas aparições públicas, incluindo audiências no Congresso e eventos de mercado.

Druckenmiller, por sua vez, sinalizou em outras ocasiões que está posicionado para a queda dos títulos de longo prazo, o que sugere que a crítica ao plano de Bessent não é apenas teórica. Investidores devem acompanhar os próximos leilões de recompra e os comentários dos dois nomes para calibrar o risco na renda fixa americana.

O programa de recompra de títulos, que foi criado para melhorar a liquidez do mercado de Treasuries, segue em operação. Mas, depois da declaração do mentor de Bessent, a pressão por transparência e por resultados concretos aumentou. O mercado observa se a recompra de bonds americanos sairá do papel como planejado ou se será revista diante das críticas.