Fundos de crédito privado de Cliffwater e Blackstone limitam resgates

Cliffwater e Blackstone cortam saques a 5% no 3º trimestre; demanda por resgate supera o permitido

Por Marcos Guimarães4 set 2026
Fundos de crédito privado de Cliffwater e Blackstone limitam resgates

O que aconteceu

O fundo principal de crédito privado da Cliffwater voltou a limitar os resgates a 5% das cotas no terceiro trimestre. Isso aconteceu depois que investidores tentaram sacar cerca de 16% das cotas do fundo no período, segundo informações divulgadas pela Bloomberg.

O Blackstone Private Credit Fund, maior BDC do setor com US$ 77 bilhões em ativos, também anunciou na quinta-feira que limitaria novamente os resgates a 5%. Os cotistas do fundo da Blackstone buscaram resgatar 10% das cotas.

Os BDCs, sigla para business development companies, são veículos que emprestam dinheiro a empresas de médio porte. Eles ganharam popularidade entre investidores institucionais e pessoas físicas por oferecerem rendimentos mais altos que os de títulos tradicionais.

Contexto

A limitação de resgates é uma ferramenta prevista nas regras desses fundos para momentos de estresse. Quando o volume de pedidos de saque supera o permitido, o fundo reduz proporcionalmente o valor pago a cada cotista.

O Cliffwater Corporate Lending Fund, nome oficial do veículo da gestora, vem enfrentando pressão de resgates há vários trimestres. O Blackstone Private Credit Fund, por sua vez, registrou demanda por saques acima do limite desde 2022, quando o mercado de crédito privado passou por um aperto após o aumento das taxas de juros pelo Federal Reserve.

Com a manutenção dos juros em níveis elevados por mais tempo, o custo de oportunidade para os investidores mudou. Aplicações em títulos do Tesouro americano, por exemplo, passaram a render mais, reduzindo o apelo relativo do crédito privado, que tem liquidez limitada por natureza.

Por que importa

A decisão afeta diretamente cotistas que esperavam receber seu dinheiro de volta. No caso da Cliffwater, apenas um terço dos pedidos de resgate foi atendido, já que os investidores queriam sacar 16% e o fundo pagou 5%. No fundo da Blackstone, metade da demanda por saque foi atendida, com 5% pagos sobre 10% solicitados.

O crédito privado cresceu de forma acelerada na última década. Estima-se que o setor movimente mais de US$ 1,5 trilhão globalmente, com os BDCs listados e privados sendo uma parcela relevante desse total.

No Brasil, o mercado de crédito privado também cresceu, mas o modelo dominante é diferente. As debêntures e os fundos de crédito privado com liquidez diária ou semanal seguem regras da CVM que exigem prazos de cotização específicos, o que reduz o risco de corridas como as vistas nos EUA.

Impacto

A repetição das travas de resgate reforça um alerta sobre a liquidez do setor. Os fundos de crédito privado investem em empréstimos que não têm mercado secundário ativo. Vender esses ativos rapidamente para pagar cotistas implicaria perdas significativas.

Por isso, os gestores preferem limitar os saques a desovar carteira com deságio. Isso protege os cotistas que permanecem no fundo, mas cria frustração para quem precisa do dinheiro.

O Blackstone Private Credit Fund paga atualmente uma distribuição mensal e segue com desempenho operacional saudável. O problema não é a qualidade dos ativos, e sim o descasamento entre o perfil ilíquido da carteira e a expectativa de liquidez dos cotistas.

Para o mercado como um todo, a percepção de que grandes fundos podem travar saques afeta a confiança no produto. Assessores de investimento e consultores precisam explicar melhor aos clientes que crédito privado não é equivalente a um CDB com liquidez diária.

O que muda

A trave de 5% deve permanecer enquanto a demanda por resgates superar o limite. A Cliffwater enfrenta um volume de pedidos maior que o da Blackstone, o que sugere que o fluxo de saques pode continuar pressionado.

A Blackstone já reduziu o limite de resgates trimestrais no passado, de 2% ao mês para 1%, em resposta à pressão dos cotistas. Essa flexibilidade nas regras permite que o gestor ajuste o ritmo de pagamentos conforme sua capacidade de levantar caixa sem vender ativos com prejuízo.

O que vem agora

O próximo trimestre será revelador. Se investidores seguirem tentando sacar bem mais que o permitido, os limites podem permanecer ou até ser reduzidos. Se a demanda por resgates cair para perto dos 5%, os fundos podem voltar a pagar integralmente os pedidos.

A Bloomberg informou que o assunto foi discutido no programa Bloomberg Real Yield, com participação da jornalista Olivia Fishlow, no dia 3 de setembro de 2026. A tendência das taxas de juros americanas, que o Federal Reserve começa a sinalizar que pode cortar, será o principal fator para aliviar a pressão sobre esses fundos.