Fracasso de remédio de colesterol da Novartis abala corrida bilionária

Pelacarsen reduziu o colesterol Lp(a), mas não melhorou desfechos cardiovasculares. Amgen e Eli Lilly sob pressão.

Por Marcos Guimarães8 set 2026
Fracasso de remédio de colesterol da Novartis abala corrida bilionária

O que aconteceu

A Novartis anunciou na sexta-feira que o pelacarsen, remédio de colesterol desenvolvido em parceria com a Ionis Pharmaceuticals, não conseguiu melhorar de forma significativa os desfechos cardiovasculares em um ensaio clínico de fase tardia. O estudo, com mais de 8.000 pacientes que já estavam em tratamento otimizado, mostrou redução do Lp(a), mas isso não se traduziu em menos ataques cardíacos ou derrames. A ação da Novartis caiu 3% na segunda-feira. A notícia foi publicada pela CNBC em 8 de setembro de 2026. O Citi, em nota de pesquisa, afirmou que "a hipótese do Lp(a) foi enfraquecida, mas não refutada", e que os detalhes do estudo ainda são escassos, incluindo a magnitude da redução do Lp(a) obtida pelo pelacarsen. A Novartis disse que os resultados completos serão apresentados em um congresso médico. O diretor médico Shreeram Aradhye afirmou que os dados "fornecem evidências importantes que avançam a compreensão científica da relação entre a redução do Lp(a) e os resultados cardiovasculares".

Contexto

O Lp(a), sigla para lipoproteína(a), foi descoberto em 1963. Quase 50 anos depois, pesquisadores mostraram que pessoas com níveis elevados dessa lipoproteína têm mais que o dobro do risco de ataque cardíaco. Ao contrário do LDL, o Lp(a) é determinado quase inteiramente pela genética e não muda com dieta ou exercício. Cerca de uma em cada cinco pessoas no mundo tem níveis elevados de Lp(a), e não há nenhum tratamento aprovado que atue especificamente sobre ele. Descoberta em 1963, a lipoproteína(a) contribui para o acúmulo de placa nas artérias e para a formação de coágulos. A corrida para preencher essa lacuna ganhou força nos últimos anos. A Amgen e a Eli Lilly testam tecnologias diferentes das da Novartis, e suas abordagens mostraram reduções ainda mais profundas do Lp(a) em estágios anteriores. O revés do pelacarsen atinge justamente a frente mais avançada dessa disputa.

Por que importa

O fracasso do pelacarsen aumenta o risco de um mercado que analistas estimam valer bilhões de dólares. Se a hipótese de que reduzir o Lp(a) diminui ataques cardíacos e derrames for abalada, os programas da Amgen e da Eli Lilly passam a enfrentar mais ceticismo. A Jefferies, em nota de domingo, lembrou que os padrões de cuidado cardiovascular estão melhorando, o que reduz a ocorrência de eventos e torna mais difícil e caro provar o benefício de uma nova terapia. Para os pacientes, a demora significa continuar sem uma opção específica para um fator de risco que não pode ser controlado com mudança de estilo de vida.

Impacto

No curto prazo, a queda de 3% das ações da Novartis na segunda-feira resume a reação do mercado. O Citi aponta que ainda não dá para saber se o resultado negativo reflete o mecanismo do pelacarsen, o desenho do estudo ou um problema na própria hipótese do Lp(a). Isso muda a leitura dos próximos dados. Se a hipótese for desafiada, reduções maiores de Lp(a), como as vistas com as tecnologias da Amgen e da Eli Lilly, podem não ser suficientes para convencer reguladores e médicos. A Novartis enfatizou que os mais de 8.000 pacientes do estudo já estavam em tratamento otimizado, o que pode ter reduzido o número de eventos e dificultado a demonstração de diferença.

O que muda

A corrida continua, mas com mais cautela. A Amgen e a Eli Lilly seguem com seus programas, porém analistas devem exigir dados mais robustos e recalibrar as chances de sucesso. O pelacarsen, que era visto como o candidato mais avançado da classe, perde força. A Novartis diz que os dados completos, a serem apresentados em um congresso médico, podem ajudar a entender melhor a relação entre a redução do Lp(a) e os resultados cardiovasculares.

O que vem agora

Os resultados completos do estudo do pelacarsen serão divulgados em um congresso médico ainda sem data anunciada. O Citi e outros analistas aguardam esses dados para determinar se o problema está no mecanismo da droga, no desenho do estudo ou na própria hipótese. Enquanto isso, a Amgen e a Eli Lilly devem continuar avançando com suas respectivas tecnologias, agora sob escrutínio ainda maior.