Irã usa criminosos estrangeiros para atacar críticos no exterior

Pouria Zeraati, apresentador da Iran International, recebeu ameaças diárias e teve a casa vigiada por homens mascarados.

Por Marcos Guimarães25 ago 2026
Irã usa criminosos estrangeiros para atacar críticos no exterior

O que aconteceu

Pouria Zeraati, jornalista iraniano de 38 anos que vive em Londres, passou quase dois anos reunindo provas de que o regime de Teerã enviou agentes para silenciá-lo. Segundo reportagem da The New Yorker, ele recebia mensagens de assédio quase diariamente, por telefone e e-mail. Homens mascarados vigiaram sua casa e seguiram sua esposa na rua. Um desconhecido avisou no Telegram que havia recebido dinheiro para machucá-lo. Zeraati relatou cada ameaça à polícia britânica, que garantiu que ele estava seguro. Mas ele temia pela vida: "Eu sentia como se fosse meu próprio detetive, profetizando meu assassinato", disse.

Contexto

Zeraati chegou à Inglaterra em 2007 para estudar engenharia mecânica. Depois de se formar, foi contratado como repórter da Manoto, canal de TV em persa com sede em Londres, um dos mais assistidos no Irã na época. Em 2022, passou a apresentar o programa "The Last Word" na Iran International, emissora via satélite que atraía atenção dos iranianos por suas críticas ao regime. O canal foi lançado em 2017 com fundos de investidores sauditas-britânicos e é proibido dentro do Irã. A emissora não revela seus doadores privados, o que gera suspeitas de que faz parte de uma campanha de mídia para fortalecer a oposição ao governo iraniano. Quando Zeraati e a reportagem se encontraram, em 2022, o movimento de protesto "Mulher, Vida, Liberdade" havia eclodido após a morte de Mahsa Jina Amini, de 22 anos, detida e espancada pela polícia por supostamente expor o cabelo. As transmissões do canal mostravam entrevistas com ativistas e autoridades israelenses, além de vídeos de manifestações: mulheres queimando hijabs, policiais batendo em estudantes e multidões gritando "Morte ao regime dos aiatolás!". Em um post no Twitter, Zeraati pediu "a destruição de um regime assassino que mata fiéis e crianças".

Por que importa

A reportagem expõe uma tática do Irã de recrutar criminosos estrangeiros para atacar críticos fora de suas fronteiras. Isso representa um risco direto para jornalistas, ativistas e opositores exilados. O caso de Zeraati mostra que mesmo em um país como o Reino Unido, com polícia e serviços de inteligência, um dissidente pode se sentir vulnerável. A impunidade dessas operações pode inibir a liberdade de expressão e a atuação da mídia independente iraniana no exterior. Além disso, a falta de transparência no financiamento da Iran International levanta questões sobre a influência de potências estrangeiras na oposição iraniana.

Impacto

No curto prazo, a revelação pode pressionar as autoridades britânicas a investigarem mais a fundo as ameaças contra Zeraati e outros jornalistas. Também pode levar a um endurecimento das sanções contra o Irã por parte de países ocidentais. Para a comunidade iraniana no exílio, o medo de represálias pode aumentar, dificultando a organização de protestos e a divulgação de informações. A Iran International, por sua vez, pode enfrentar mais questionamentos sobre sua independência editorial, já que depende de doadores privados não revelados.

O que vem agora

Zeraati continua vivendo em Londres, mas a reportagem não indica se ele mudou de endereço ou recebeu proteção adicional. A The New Yorker não informa se a polícia britânica abriu investigação sobre os criminosos estrangeiros. Espera-se que o caso ganhe repercussão e leve a um debate sobre a segurança de jornalistas exilados. O Irã, por sua vez, nega envolvimento em ataques a críticos no exterior, mas já foi acusado de planejar assassinatos em solo estrangeiro em outras ocasiões.

Fontes