Jefferies alerta para 'investimentos zumbis' de private equity

Jason Greenberg vê dificuldade de private equity em devolver capital e aposta em IA para destravar negócios

Por Marcos Guimarães27 ago 2026
Jefferies alerta para 'investimentos zumbis' de private equity

O que aconteceu

O mercado de private equity tem um problema sério com ativos 'zumbis', na avaliação de Jason Greenberg, chefe global de estratégia de banco de investimento e chairman executivo de banco de investimento de TMT na Jefferies. Em entrevista ao programa "Bloomberg Deals", da Bloomberg, apresentado por Dani Burger, em 26 de agosto de 2026, Greenberg afirmou que muitos investimentos de PE não conseguem encontrar saída, seja por venda, IPO ou nova rodada. A entrevista foi ao ar em vídeo publicado pela Bloomberg no mesmo dia, com o título "Lots of PE 'Zombie' Investments: Jeffries' Greenberg" (fonte: Bloomberg).

O banqueiro discutiu o tema em um momento em que o setor de compras alavancadas acumula empresas que permanecem no portfólio por anos, sem crescimento relevante e sem liquidez para os investidores. O alerta veio do executivo que comanda a estratégia de banco de investimento da Jefferies e também a área de tecnologia, mídia e telecomunicações (TMT), setor que concentra boa parte dos negócios de software e inteligência artificial em negociação.

Contexto

O fenômeno do 'zumbi' não é novo, mas ganhou força nos últimos ciclos econômicos. Quando os juros sobem, o custo da dívida aumenta e as empresas compradas com alavancagem ficam mais caras de manter. Simultaneamente, o mercado de IPOs encolhe, e a venda para outros fundos, conhecida como venda secundária, também perde tração. Isso cria um acúmulo de ativos que consomem taxa de gestão, mas não devolvem capital aos cotistas.

Greenberg, que lidera a estratégia global de banco de investimento da Jefferies, um dos maiores bancos de investimento independentes do mundo, conectou esse cenário à sua área de atuação. O software e a inteligência artificial aparecem como exceções que atraem capital mesmo em tempos difíceis, segundo ele. Mas mesmo essas teses começam a sentir o peso das avaliações altas, o que dificulta a saída lucrativa.

Por que importa

A declaração de Greenberg tem peso porque a Jefferies participa ativamente de fusões e aquisições em tecnologia. Quando um executor de negócios desse porte diz que há 'muitos' ativos zumbis, isso sinaliza que o problema afeta não apenas empresas pequenas, mas também portfólios de fundos médios e grandes. Para o mercado brasileiro, isso ressoa de duas formas: fundos locais que têm exposição a ativos dos EUA podem enfrentar atraso no retorno, e a competição por ativos de tecnologia tende a continuar intensa, pressionando preços.

Na prática, o investidor de fundos de PE, como fundos de pensão e endowments, espera receber o capital de volta em um ciclo médio de cinco a sete anos. Com o acúmulo de zumbis, esse prazo se alonga, e o chamado DPI (distribuído sobre capital investido) fica baixo. As gestoras então recorrem a extensões de fundo, que nem sempre são bem recebidas pelos cotistas.

Impacto

O impacto imediato é um mercado de fusões e aquisições mais lento no médio prazo, especialmente em software. Os compradores corporativos têm exigido múltiplos menores, mas os vendedores resistem a cortar preço, o que protela negócios. No campo da inteligência artificial, a situação é dupla: por um lado, há fila de compradores interessados em ativos com receita recorrente; por outro, muitos fundos de PE entraram em negócios de IA quando as avaliações estavam no pico, e hoje a saída exige desconto.

Outro efeito é o aumento das operações chamadas de 'continuação de fundo', em que a gestora vende um ativo para um veículo novo que ela mesma controla. Essa prática dá liquidez imediata, mas não resolve o problema de base, que é a falta de crescimento real das empresas. A entrevista de Greenberg, ao citar software e IA, insinua que o caminho de saída para muitos zumbis será via tecnologia, desde que o comprador aceite o risco.

O que muda

A posição pública de um banqueiro sênior como Greenberg muda o tom das reuniões de investimento. Gestoras de PE passam a ser cobradas de forma mais dura por seus limitados partners, como fundos soberanos e fundos de previdência, que querem ver um plano concreto de desinvestimento. Além disso, a fala pode acelerar o movimento de venda de ativos com desconto para liberar caixa antes que o estigma do 'zumbi' se espalhe.

No setor de tecnologia, a prioridade tende a ser a separação entre empresas de software com receita previsível e aquelas que dependem de rodadas de dívida. As primeiras continuam atraindo compradores estratégicos e fundos de capital de crescimento. As segundas, sem reestruturação, podem virar candidatas a falência ou aquisição por preço simbólico.

O que vem agora

Nos próximos meses, o mercado espera ver uma onda maior de operações de venda de participações entre fundos, as chamadas transações GP-led. A Jefferies tem posição de destaque nesse tipo de estrutura, e a declaração de Greenberg pode ser lida como um sinal de que o banco espera atuar mais nesse segmento. No front de IA, a expectativa é que o interesse por ativos de machine learning e infraestrutura de dados continue, mas com avaliações mais realistas.

Não há data definida para uma 'limpeza' no estoque de zumbis, mas a pressão dos cotistas tende a forçar decisões até o fim de 2027. Enquanto isso, o conselho de Greenberg fica implícito: quem tiver ativo parado precisa agir agora, antes que o desconto seja maior.