Sanders e Bannon se unem contra IA sem regras em Washington

Evento do Future of Life Institute reuniu espectro político improvável em Washington, mas Casa Branca e líderes republicanos seguem sem propor regulação

Por Marcos Guimarães15 set 2026
Sanders e Bannon se unem contra IA sem regras em Washington

O que aconteceu

O evento, batizado de "Pro-Human Assembly", foi organizado pelo Future of Life Institute, entidade sem fins lucrativos que faz campanha contra riscos tecnológicos de larga escala, e ocorreu em um salão de hotel Marriott na capital americana. Na mesma mesa, quatro figuras que raramente convergem em qualquer tema listaram o que consideram ameaças existenciais da IA.

"Nossos empregos, nossa liberdade e nossa segurança, tudo em risco. É difícil pensar em um assunto que toque fundamentalmente mais aspectos das nossas vidas", disse Casar no evento. O deputado texano, integrante da ala progressista, e Sanders dividiram o palco com Roy, um dos nomes mais conservadores da Câmara, e com Bannon, que foi estrategista-chefe de Trump.

Bannon cobrou que democratas e republicanos "se elevem" acima do partidarismo para tratar o risco da IA e para impor limites às empresas do setor. "Isto é uma dobradiça da história", afirmou. "Nunca podemos confiar no que os oligarcas dizem, porque tudo o que eles fazem é desonesto e mentiroso. Isso tem que ser o povo americano. Não seremos mais suplicantes."

O encontro foi marcado antes da publicação que abalou Washington na semana passada, mas ganhou outro significado depois dela.

Contexto

Na semana anterior, Jacob Coxon, funcionário da Anthropic, pediu demissão e escreveu no X que o desenvolvimento de IA sem controle traz riscos críticos. Coxon afirmou que grandes desenvolvedores, entre eles OpenAI e a própria Anthropic, estão "apostando nossas vidas".

A publicação de Coxon provocou reações imediatas no alto escalão das empresas que ele citou. O CEO da OpenAI, Sam Altman, disse que a companhia vai adiar os planos de abrir capital neste ano, citando preocupações crescentes com segurança em IA. A decisão de Altman foi comunicada depois do post do ex-funcionário da Anthropic. No fim de semana, o CEO da Anthropic, Dario Amodei, publicou um ensaio pedindo que empresas de IA desacelerem o desenvolvimento. A proposta de Amodei, CEO da Anthropic, recebeu apoio público na internet tanto de Altman quanto de Elon Musk, fundador da xAI.

O movimento no setor privado não teve eco equivalente no governo. O presidente Donald Trump chamou as preocupações de "hoax" e reforçou o apoio à indústria. "O único controle ou 'guardrail' de que a IA precisa é um PRESIDENTE FORTE E INTELIGENTE (QI alto!), e os EUA têm isso de sobra", escreveu Trump no Truth Social na segunda-feira. O presidente dos Estados Unidos publicou a mensagem um dia antes do evento em Washington.

Por que importa

O contraste é o ponto central do dia. Enquanto OpenAI e Anthropic sinalizam cautela, e enquanto setores da base populista de Trump pressionam por ação, o Congresso e a Casa Branca permanecem parados. O presidente da Câmara, Mike Johnson (R-La.), afirmou que regular a IA é responsabilidade das próprias empresas de tecnologia, e não do Legislativo. O senador Ted Cruz (R-Texas) recorreu à ameaça da China em entrevista à Politico, argumentando que uma parada unilateral americana seria perigosa caso a tecnologia se torne letal.

O argumento de Cruz e de Johnson empurra a decisão para as empresas. Na prática, quem define os limites do desenvolvimento de IA hoje são os laboratórios que constroem os modelos, não uma agência reguladora ou uma lei aprovada pelo Congresso. O "Pro-Human Assembly" tentou transformar esse vácuo em pressão política, reunindo nomes que, somados, alcançam eleitores de campos opostos.

Impacto

Para o mercado, o recado mais concreto veio das empresas. O adiamento do IPO da OpenAI anunciado por Altman mexe com expectativas de investidores que contavam com uma das maiores aberturas de capital do setor. O ensaio de Amodei, endossado por Altman e por Musk, coloca pressão sobre outras desenvolvedoras para que expliquem publicamente seus próprios ritmos de lançamento.

Para o debate público americano, o efeito imediato é uma coalizão improvável. Sanders e Bannon, Casar e Roy defendem o mesmo diagnóstico e pedem supervisão sobre as big techs de IA, ainda que partam de premissas ideológicas distintas. Bannon foi explícito ao dizer que o setor não pode ser a única fonte de informação sobre os riscos que ele mesmo cria.

O que muda

A IA deixa de ser um tema restrito ao Vale do Silício e entra no vocabulário da política populista americana, tanto à esquerda quanto à direita. A fala de Casar, ao listar emprego, liberdade e segurança como bens em risco, e a fala de Bannon, ao falar de oligarcas e de controle sobre as empresas, apontam para o mesmo alvo: a concentração de poder nas mãos de poucos laboratórios. O evento do Future of Life Institute em Washington foi a primeira demonstração pública de que esse discurso já tem porta-vozes nos dois partidos.

O que vem agora

Não há prazo anunciado para uma proposta legislativa. O que existe, por enquanto, são compromissos corporativos divulgados nos últimos dias: o adiamento da oferta pública inicial da OpenAI e o pedido de desaceleração feito por Amodei, endossado por Altman e por Musk. Do lado do governo, Trump mantém o discurso de apoio irrestrito à indústria, e a liderança republicana no Congresso segue apontando para a autorregulação. A pressão organizada em Washington nesta terça-feira deve continuar, mas sem sinal, até agora, de que o Legislativo americano vá transformá-la em regra.

Fontes

  • CNBC Technology: "AI skeptics from Bernie Sanders to Steve Bannon urge action, as Congress, Trump idle" (https://www.cnbc.com/2026/09/15/ai-skeptics-concerns-congress-trump.html)