Sheik espião dos EAU detém 49% do banco cripto da família Trump
Participação vem à tona enquanto banco recebe aprovação preliminar federal e laços com os EAU se aprofundam.
O que aconteceu
O sheik Tahnoon bin Zayed al Nahyan, conhecido como "sheik espião" por seu papel à frente da inteligência dos Emirados Árabes Unidos, está por trás da maior participação acionária no banco cripto que a família Trump planeja abrir nos Estados Unidos. Segundo o The Wall Street Journal, Tahnoon e seus co-investidores controlam a StringZ Holding RSC, que detém 49% da WLTC Holdings, a holding do banco. Uma entidade afiliada à família Trump possui outros 38% da mesma holding.
A reportagem, publicada na quinta-feira (27), detalha que a participação é parte de um acordo mais amplo. Em janeiro de 2025, mês em que Donald Trump começou seu segundo mandato, Tahnoon e outros investidores injetaram US$ 500 milhões na World Liberty Financial, empresa de cripto apoiada pela família Trump. Esse aporte garantiu a eles 49% da companhia e direcionou US$ 263 milhões para entidades da família Trump, conforme a declaração financeira anual de Trump de 2025.
A WLTC Holdings, afiliada ao banco que recebeu aprovação preliminar do Escritório do Controlador da Moeda (OCC) neste mês, tem como sócio majoritário o sheik via StringZ. O OCC concedeu a World Liberty uma aprovação condicional preliminar para estabelecer um banco fiduciário nacional, que emitiria, resgataria e protegeria o USD1, a stablecoin lastreada em dólar da empresa. O banco ainda precisa cumprir condições adicionais antes de abrir as portas.
Contexto
A relação entre Tahnoon e a família Trump não começou com o banco. O sheik, irmão do presidente dos Emiros, Mohamed bin Zayed al Nahyan, já havia investido na World Liberty Financial em janeiro de 2025. Esse movimento foi um dos vários acordos estrangeiros que beneficiaram os negócios de Trump desde que ele voltou à Casa Branca. Segundo reportagem anterior da CNBC, as empresas de Trump geraram pelo menos US$ 59,5 milhões em receitas de licenciamento estrangeiro durante o primeiro ano de seu segundo mandato.
A participação de Tahnoon no banco ocorre em um momento de negociações entre o governo Trump e os Emirados sobre acesso a chips avançados de inteligência artificial dos EUA. A administração aprovou vendas de chips para a G42, empresa de IA controlada por Tahnoon e apoiada pelo governo dos Emirados, e no mês passado flexibilizou os limites sobre quantos chips a empresa poderia comprar.
Por que importa
A presença de um oficial de alto escalão de um governo estrangeiro como sócio majoritário de um banco americano em formação levanta alertas sobre conflitos de interesse. Tahnoon é conselheiro de segurança nacional dos Emirados, um cargo que o coloca em posição de influência sobre decisões de segurança e inteligência do país. Ao mesmo tempo, o Trump administration negocia com os Emirados sobre tecnologias sensíveis, como chips de IA. A aprovação preliminar do OCC torna o empreendimento uma instituição financeira real, não apenas um projeto especulativo.
Para o leitor, o caso mostra como interesses privados e públicos se misturam em torno da família Trump. O acordo de US$ 500 milhões na World Liberty Financial, com US$ 263 milhões indo para entidades de Trump, demonstra a escala financeira envolvida. E a reportagem do WSJ aponta que o arranjo é alvo de escrutínio justamente porque Tahnoon é um funcionário de governo estrangeiro.
Impacto
No curto prazo, a revelação pode atrair atenção de legisladores americanos e intensificar investigações sobre os negócios de Trump. O fato de o banco ter aprovação preliminar do OCC não significa que ele esteja aberto; a empresa precisa satisfazer condições adicionais, que não foram detalhadas. A stablecoin USD1, que seria emitida pelo banco, entra em um mercado já competitivo e regulado.
A relação com os Emirados também ganha dimensão estratégica. A flexibilização das restrições de chips para a G42, ocorrida no mês passado, indica que Washington e Abu Dhabi estão alinhados em tecnologia, mas a participação de Tahnoon no banco de Trump pode complicar a percepção pública e regulatória desse alinhamento.
O porta-voz da World Liberty, David Wachsman, defendeu a empresa: "Somos uma empresa privada americana de tecnologia financeira, não uma organização política", disse. Ele afirmou que a trust company tem governança separada e que ninguém na World Liberty trabalha para o governo dos EUA, acrescentando que a empresa não busca nem recebe tratamento especial. Wachsman não comentou a estrutura de propriedade reportada. A Casa Branca não respondeu imediatamente ao pedido de comentário da CNBC, mas já disse anteriormente que Trump age apenas no melhor interesse do público americano e negou conflitos de interesse.
O que muda
A estrutura de propriedade do banco cripto de Trump revela um novo nível de entrelaçamento entre negócios presidenciais e um governo estrangeiro. Se o banco abrir, Tahnoon e seus sócios terão participação majoritária em uma instituição que emitirá stablecoin nos EUA. Isso muda o panorama de bancos cripto no país, porque um acionista estrangeiro com influência governamental terá voz em uma entidade financeira regulada.
Para a indústria de cripto, o caso reforça a percepção de que o setor se aproxima de figuras políticas poderosas, algo que já gerou críticas. A World Liberty, que se apresenta como uma empresa privada, terá que lidar com o ônus do escrutínio contínuo.
O que vem agora
O banco precisa cumprir as condições impostas pelo OCC antes de iniciar operações. Não há prazo público para a abertura. A reportagem do WSJ pode pressionar o Congresso a investigar o acordo, especialmente em um ano eleitoral. Os próximos passos incluem possíveis audiências, revisões de órgãos reguladores e a resposta formal da Casa Branca sobre a participação de Tahnoon. A flexibilização dos limites de chips para a G42, anunciada no mês passado, sugere que a cooperação entre os EUA e os Emirados deve continuar, mas com o caso do banco, essa cooperação agora terá um componente financeiro diretamente ligado à família Trump.
