Startups de baterias dos EUA encontram novo mercado na defesa com US$ 500 milhões do governo
Programa do Departamento de Energia bombeia capital para cadeia de suprimentos, enquanto mercado automotivo encolhe
O que aconteceu
O Departamento de Energia dos Estados Unidos anunciou na quinta-feira (22/8) a concessão de US$ 500 milhões em subsídios para startups de baterias. O objetivo declarado do programa é "reduzir a dependência de fontes estrangeiras, fortalecer a segurança nacional e promover a supremacia energética americana". Grande parte desse capital foi direcionada a empresas em estágio inicial.
A startup Coreshell, que desenvolve materiais para baterias, recebeu US$ 50 milhões para expandir sua manufatura de materiais de ánodo de silício metalúrgico. A empresa reforçou sua conexão com o setor de defesa ao trazer a ADS Ventures como investidor. A ADC Ventures é a braço de venture capital da ADS, uma fornecedora de defesa que também trabalha com outro fornecedor de sistemas autônomos. Um porta-voz da Coreshell confirmou à TechCrunch que "aplicações de defesa para baterias de íon-lítio estão absolutamente em jogo nas discussões".
Outras duas startups receberam US$ 100 milhões cada. A Lilac Solutions, que extrai lítio de salmouras, usará o dinheiro para construir uma instalação de processamento no Grande Lago Salgado, em Utah. A meta é produzir 5.000 toneladas métricas de carbonato de lítio por ano até 2028. O carbonato de lítio é um precursor essencial para a produção de baterias. A Nth Cycle também garantiu US$ 100 milhões para construir uma instalação que refinará "massa negra" de baterias de íon-lítio recicladas, produzindo compostos de lítio e níquel para novas baterias.
Contexto
O momento financeiro das startups de bateria nos EUA havia se deteriorado significativamente. O setor ficou "em apuros" (on the ropes) após o pacote legislativo "One Big Beautiful Bill", que eliminou incentivos para baterias e veículos elétricos (EVs). Isso subtraiu uma parte significativa da demanda futura projetada para o setor.
Apesar de sua aversão pública aos EVs, a administração Trump reconhece que as baterias são uma parte inevitável da vida moderna. Como muitas outras coisas em Washington, o governo está usando a segurança nacional como justificativa para suas decisões recentes. O setor de defesa já era um comprador relevante mesmo antes desse anúncio. Em 2021, a Defense Logistics Agency dos EUA já comprava US$ 200 milhões em baterias por ano, valor que, segundo especialistas, é superado pelo mercado automotivo, mas que agora ganha peso estratégico.
Por que importa
Os subsídios do DOE desenham um novo mapa de oportunidades para startups que estavam com o modelo de negócios ameaçado. A demanda do setor de defesa se concretiza em aplicações como drones, torpedos, rádios de infantaria e caças, criando uma receita estável e estratégica. Megan O’Connor, co-fundadora e CEO da Nth Cycle, explicou à TechCrunch: "Estamos vendo os drivers claros de demanda vindo do setor de defesa. Mas ainda existe demanda no espaço automotivo também".
Para o governo, a movimentação é uma aposta na soberania da cadeia de suprimentos de baterias, reduzindo a dependência de processamento e materiais da Ásia. Para os investidores, como a ADS Ventures, abre-se uma via para capital estratégico com ligação direta com o complexo industrial militar.
Impacto
No curto prazo, as startups concessionárias ganham fôlego financeiro para construir instalações e escalar produção, como a unidade de processamento da Lilac Solutions em Utah. No médio prazo, a dinâmica de demanda do setor se altera. O setor automotivo ainda lança novos modelos e espera anos de crescimento, mas as projeções estão mais longe. Enquanto isso, a defesa se tornará um player significativo e consistente.
A mudança obriga startups de bateria a dualizar suas estratégias de mercado, atendendo tanto às especificações rígidas da defesa quanto aos requisitos de custo e escala do mercado automotivo. Também pode acelerar a inovação em nichos como baterias robustas, reciclagem avançada e segurança.
O que muda
A centralidade do setor de defesa como financiador e cliente muda o perfil de risco e retorno para o investimento em hardware de energia nos EUA. Empresas como a Coreshell, com investidor estratégico do setor de defesa, estão melhor posicionadas para essa nova realidade. A reciclagem de baterias, área da Nth Cycle, ganha um driver adicional de demanda quando o governo valoriza a soberania e o fornecimento seguro de materiais críticos.
O que vem agora
Os prazos são concretos. A Lilac Solutions planeja ter sua instalação operando em Utah e produzindo 5.000 toneladas anuais de carbonato de lítio até 2028. As outras startups usarão os subsídios nos próximos anos para expandir capacidade. O DOE monitorará a execução desses projetos com o objetivo de reforçar a cadeia nacional. É provável que novas rodadas de financiamento ou políticas de compras públicas de baterias para a defesa sejam anunciadas para sustentar a estratégia. O mercado automotivo, apesar do revés, continua com lançamentos e expectativa de crescimento, sugerindo que o futuro do setor será definido pela capacidade de atender a dois gigantes: a indústria de defesa e a mobilidade elétrica.
