Tesouro não fez o suficiente para reduzir yields, diz iCapital

Dan Suzuki, da iCapital, diz que ações para conter juros longos são insuficientes na prática

Por Marcos Guimarães25 ago 2026
Tesouro não fez o suficiente para reduzir yields, diz iCapital

O que aconteceu

Dan Suzuki, estrategista global da iCapital, afirmou que o Tesouro dos EUA não fez o suficiente para reduzir os yields de longo prazo. As medidas tomadas até agora, segundo ele, são insuficientes e principalmente simbólicas. A declaração foi dada em 25 de agosto durante o programa Bloomberg Surveillance, da Bloomberg TV. Suzuki também defendeu que o Federal Reserve terá que começar a elevar as taxas de juros em algum momento, contrariando a expectativa de que os cortes recentes continuariam.

A avaliação de Suzuki foi feita em vídeo publicado pela Bloomberg no mesmo dia. O estrategista da iCapital argumenta que as ações do Tesouro americano não atacam a raiz do problema, que é o excesso de oferta de títulos e a persistência das pressões inflacionárias.

Contexto

O Tesouro americano, responsável pela gestão da dívida pública dos Estados Unidos, vem tentando reduzir os juros de longo prazo desde meados da década. Em 2024, retomou um programa de recompras de títulos, uma ferramenta que não usava desde a crise financeira de 2008. O objetivo era melhorar a liquidez do mercado de Treasuries e suavizar movimentos extremos de preço, especialmente nos vencimentos de 10 e 30 anos.

O programa, porém, tem sido criticado por sua escala modesta. Na leitura de Suzuki, as recompras não são suficientes para conter os yields em um cenário de déficits fiscais elevados e de emissões crescentes de dívida. O Tesouro dos EUA, que vinha reduzindo sua participação no mercado desde os anos 2000, voltou a ser um comprador relevante, mas o efeito prático sobre a curva de juros tem sido limitado, segundo analistas.

A declaração de Suzuki ocorre após um ciclo de cortes de juros pelo Federal Reserve que começou em 2024. O Fed reduziu a taxa básica em várias ocasiões ao longo de 2025, mas a inflação segue acima da meta de 2%, o que gera dúvidas sobre a capacidade de manter a política acomodatícia. Para o estrategista, o Fed terá que subir juros para ancorar as expectativas, mesmo que isso custe desaceleração econômica.

Por que importa

Se o Tesouro não consegue reduzir os yields longos, o custo de financiamento do governo e das empresas continua alto. Isso se reflete diretamente em hipotecas, empréstimos corporativos e no custo de capital de projetos de longo prazo. A afirmação de Suzuki de que o Fed terá que subir juros reforça a visão de que os cortes foram prematuros e que a inflação ainda não está controlada.

Para investidores brasileiros, a sinalização também tem peso. Juros americanos elevados tendem a fortalecer o dólar e a pressionar moedas de mercados emergentes, incluindo o real. Curvas de juros locais costumam acompanhar o movimento, o que encarece o crédito interno e reduz o apetite por ativos de risco.

Impacto

No curto prazo, a fala de Suzuki deve manter os investidores cautelosos com renda fixa de longo prazo. Os títulos de 10 e 30 anos do Tesouro americano devem continuar com prêmios elevados, já que o mercado não vê sinais de que a oferta vai diminuir. Isso pressiona a relação risco e retorno em todas as classes de ativos.

No médio prazo, se o Fed de fato voltar a subir juros, o efeito será uma desaceleração mais forte da economia americana. Setores sensíveis a crédito, como imobiliário e tecnologia, seriam os primeiros a sentir o aperto. A decisão de Suzuki de apontar a alta de juros como inevitável indica que o mercado precisa se preparar para um cenário de juros altos por mais tempo, o que também afeta a precificação de ações globais.

O que muda

A mudança principal é a reavaliação das expectativas sobre a política monetária americana. Se o Tesouro dos EUA não agir com medidas mais efetivas, como um programa de recompras em escala maior ou um ajuste na emissão de papéis, o mercado continuará exigindo prêmios maiores. E se o Federal Reserve tiver que subir juros, o fim do ciclo de cortes será antecipado, alterando o planejamento de empresas e investidores que apostavam em um custo de capital mais baixo.

Para a iCapital, a leitura de Suzuki é um alerta para os clientes que mantêm posições em renda fixa e em ações de empresas com dívida elevada. A recomendação implícita é reduzir exposição a ativos de duration longa e buscar proteção contra um cenário de juros mais altos.

O que vem agora

O mercado acompanha os próximos passos do Federal Reserve, que tem reunião marcada para setembro. Os dados de inflação e emprego dos Estados Unidos, divulgados nas próximas semanas, serão decisivos para confirmar ou não a visão de Suzuki. O Tesouro americano também deve anunciar novas emissões e possíveis ajustes no programa de recompra, o que pode dar pistas sobre a disposição do governo em agir com mais força.

Suzuki não indicou um prazo para a alta de juros, mas deixou claro que ela deve ocorrer. A declaração, transmitida na Bloomberg, será acompanhada por investidores de todo o mundo como um sinal de que a era de juros baixos nos Estados Unidos pode ter chegado ao fim. As medidas do Tesouro, se continuarem simbólicas, não serão suficientes para mudar esse cenário.