Tony Hawk's Pro Skater 2 esconde armadilha banida pela ONU
Investigação da Polygon explica como a tática de guerra de espinhos entrou no jogo de skate
O que aconteceu
No editor de parques de Tony Hawk's Pro Skater 2, o jogador podia posicionar uma armadilha chamada Pungee Pit: um conjunto de estacas pontiagudas que se ergue do chão para punir quem passar por cima. A arma é uma técnica de guerrilha associada à Guerra do Vietnã e banida por tratados internacionais. O jornalista Brian David Gilbert, em vídeo para a Polygon, foi atrás da resposta para entender por que a Neversoft colocou uma tática de guerra proibida pela ONU em um jogo leve de skate (Polygon).
A investigação é o tipo de arqueologia digital que o portal costuma fazer: revisitar um objeto cultural consagrado e encontrar nele um resíduo desconfortável do contexto produtivo. No caso, a pergunta não é sobre funcionalidade, mas sobre origem: de onde veio a ideia do Pungee Pit e o que ela revela sobre como games absorvem arsenais militares.
Contexto
O Pungee Pit remete aos pungi sticks usados por guerrilheiros vietcongues na década de 1960: estacas de bambu afiadas, escondidas em buracos cobertos por vegetação, capazes de perfurar botas e pernas de soldados. A tática foi amplamente condenada e, em 1980, entrou no escopo da Convenção sobre Certas Armas Convencionais da ONU, com emendas que proíbem armadilhas de estacas ou espinhos (booby traps) em conflitos. Colocar isso em um jogo da franquia de skate que virou febre mundial no fim dos anos 1990 é, no mínimo, um anacronismo.
Tony Hawk's Pro Skater 2 chegou em 2000 e se tornou um dos títulos mais vendidos da época, com vendas milionárias e notas quase perfeitas na imprensa. O editor de parques era um dos grandes diferenciais: permitia criar pistas inteiras e compartilhá-las. Foi nesse espaço de criatividade que a armadilha proibida encontrou abrigo.
Por que importa
A descoberta não muda a diversão do jogo, mas levanta uma questão pertinente sobre montagem de conteúdo em games: os desenvolvedores construíam objetos inspirados em referências pop e militares sem considerar o peso histórico dessas escolhas. O Pungee Pit é um exemplo direto de como a cultura de guerra se infiltrou em produtos para todas as idades — e como esse símbolo circulava sem alarde no principal jogo de skate da época.
Para o leitor brasileiro, que cresceu jogando a franquia, o caso funciona como um aviso: muita coisa aparentemente inocente nos jogos clássicos tem origem em arsenais reais — de armadilhas de guerra a técnicas de tortura — e só agora vem à tona com as análises históricas dos portais.
Impacto
A curto prazo, o vídeo de Gilbert deve gerar nova leva de discussões sobre o legado da Neversoft e sobre os limites do design em jogos considerados familiares. A médio prazo, reforça o movimento de arqueologia do game: jornalistas revisitam títulos antigos não pelo saudosismo, mas para mapear como traumas históricos foram embalados como entretenimento. O Pungee Pit dificilmente será removido ou corrigido em remasters — mas, a partir de agora, quem o encontrar saberá exatamente o que estava pisando.
O que vem agora
O material completo está no vídeo publicado pela Polygon, conduzido por Brian David Gilbert, que reconstitui a lógica da Neversoft ao incluir a armadilha. A expectativa é que o conteúdo alavanque mais perguntas do público sobre itens escondidos em clássicos do skate e de outros gêneros. Para quem quer revisitar o jogo, vale abrir o editor de parques do segundo título da franquia e observar o Pungee Pit com outros olhos — e, quem sabe, questionar os demais objetos que ali foram colocados sem cerimônia.
Fontes
- Polygon — Why did Tony Hawk's Pro Skater 2 feature a booby trap banned by the UN? (https://www.polygon.com/video/why-did-tony-hawk-s-pro-skater-2-feature-a-booby-trap-banned-by-the-un/)
