New Delhi capta US$ 73 bilhões em 11 semanas com depósitos de não residentes

Esquema de câmbio do banco central indiano atraiu capital e deu fôlego à moeda pressionada pela conta de energia

Por Marcos Guimarães25 ago 2026
New Delhi capta US$ 73 bilhões em 11 semanas com depósitos de não residentes

O que aconteceu

A Nova Délhi atraiu US$ 73 bilhões em entradas de capital em apenas 11 semanas, segundo comunicado do ministério das Finanças da Índia publicado na segunda-feira. O grosso do dinheiro, mais de US$ 65 bilhões, veio de depósitos em moeda estrangeira feitos por indianos não residentes em bancos locais, dentro do esquema conhecido como Foreign Currency Non-Resident (Bank), ou FCNR-B. O ministério chamou a operação de "o maior e mais rápido exercício de mobilização de moeda estrangeira" já feito pelo país.

Os US$ 73 bilhões captados em 11 semanas foram liderados pelos depósitos incentivados. A corretora Nomura estima que os depósitos FCNR-B podem chegar a quase US$ 80 bilhões antes do encerramento dos benefícios, que termina em 31 de agosto. O banco Jefferies, em relatório também de segunda-feira, calcula que, somadas outras linhas de crédito externo, a Índia pode levantar até US$ 100 bilhões até o fim do mês.

Contexto

O banco central da Índia (RBI, na sigla em inglês) começou em junho a oferecer incentivos especiais sobre depósitos em moeda estrangeira de não residentes, além de linhas de empréstimos no exterior. O objetivo era conter a queda da rupia, que sofria com a conta crescente de importação de energia e com a saída de capital estrangeiro do mercado de ações.

O movimento repete uma estratégia de 2013. Na ocasião, o mesmo tipo de esquema trouxe US$ 26 bilhões em três meses. Desta vez, as entradas "fortaleceram" as reservas externas do país com "máxima eficiência de custo", afirmou o ministério das Finanças. A pressão sobre a moeda segue intensa. Em março, investidores estrangeiros venderam um recorde de US$ 12,7 bilhões em ações indianas. No acumulado do ano até agosto, as vendas de ações diretas somam US$ 24,5 bilhões, acima dos US$ 18,9 bilhões de todo o ano passado.

Por que importa

Os US$ 73 bilhões deram fôlego ao RBI para intervir no câmbio. Gaura Sengupta, economista-chefe do IDFC First Bank, disse à CNBC que o banco central está usando os recursos para reduzir a "volatilidade", e não para "influenciar a direção" da moeda. A rupia era negociada a 95,7 por dólar na terça-feira. A instituição financeira projeta a moeda em torno de 96,50 por dólar até março de 2027.

A estabilidade relativa da rupia, apesar da alta recente dos preços de energia, é atribuída justamente a essas entradas. Os depósitos dos não residentes funcionam como um colchão que reduz a necessidade de queimar reservas internacionais para segurar o câmbio. Para o consumidor indiano, o efeito prático é menos importação encarecida e menos pressão inflacionária adicional numa economia que já convive com preços altos.

Impacto

O cenário de fundo continua adverso. O déficit comercial da Índia saltou para US$ 49,3 bilhões entre abril e julho deste ano, contra US$ 32,3 bilhões no mesmo período do ano passado. As importações de energia respondem por mais de um quarto das compras do país no exterior. Foi esse desequilíbrio, somado à fuga de capitais, que levou o governo a criar o esquema de captação.

A fortuna em dólares depositada por não residentes reforçou as reservas do RBI num momento em que o banco central precisa de arsenal para suavizar o câmbio. Para as empresas indianas com dívida em moeda estrangeira, a folga na volatilidade reduz o risco de calote. Para os fundos globais, a sinalização é de que a Índia tem instrumentos para administrar a pressão externa, o que sustenta o apetite por ativos locais no médio prazo.

O que muda

A natureza do capital que entrou na Índia mudou em poucas semanas. Antes concentradas em ações, as carteiras estrangeiras agora dependem de depósitos bancários. O dinheiro de não residentes é mais estável que o de fundos de ações, o que reduz o risco de reversão brusca, mas cria uma obrigação: os bancos precisarão honrar os juros atrativos prometidos ao fim do prazo.

O que vem agora

O prazo dos incentivos termina em 31 de agosto. Até lá, a Nomura projeta que os depósitos FCNR-B possam alcançar quase US$ 80 bilhões. O Jefferies avalia que, incluindo outras linhas de captação, o total pode ultrapassar US$ 100 bilhões até o fim do mês. Depois do encerramento do esquema, a atenção volta para o comportamento da rupia sem o estímulo adicional e para a política do RBI, que terá de equilibrar o combate à inflação com a defesa do câmbio.