Sony e Warner processam Anthropic por pirataria no treinamento do Claude

Gravadoras acusam laboratório de IA e fundadores de torrents ilegais de obras protegidas

Por Marcos Guimarães29 ago 2026
Sony e Warner processam Anthropic por pirataria no treinamento do Claude

O que aconteceu

A Sony Music Publishing e a Warner Chappell, acompanhadas de outras editoras musicais, moveram uma ação judicial contra a Anthropic e seus cofundadores, Dario Amodei e Benjamin Mann, na sexta-feira, 29 de agosto de 2026. O processo, registrado no Tribunal Distrital dos EUA para o Distrito Norte da Califórnia, acusa o laboratório de inteligência artificial de conduzir uma "campanha descarada de torrents, scraping e download ilegal" de obras protegidas por direitos autorais. Segundo a petição, a Anthropic teria usado milhares de obras para treinar seu modelo Claude, prática descrita como "roubo flagrante". A informação foi divulgada inicialmente pelo Music Business Worldwide. A Anthropic não respondeu aos pedidos de comentário até a publicação desta matéria.

A ação contra a Anthropic, movida por Sony Music Publishing e Warner Chappell, destaca que o laboratório teria obtido milhões de cópias de livros, incluindo obras que contêm letras e partituras, por meio de torrents ilegais. O processo é mais amplo do que ações anteriores, ampliando as acusações para incluir "pirataria flagrante" como método central de aquisição de conteúdo. A decisão judicial anterior, no caso Bartz v. Anthropic, já havia estabelecido que, embora seja legal usar obras protegidas para treinar IA, não é legal obtê-las por pirataria.

Contexto

Esta não é a primeira disputa de propriedade intelectual envolvendo a Anthropic. Em janeiro de 2026, a Concord Music Group e a Universal Music Group entraram com um processo semelhante, representadas por parte dos mesmos advogados que agora atuam na ação de Sony e Warner. Antes disso, o caso Bartz v. Anthropic, conduzido por um grupo de autores, resultou em uma sentença de US$ 1,5 bilhão contra a empresa. O juiz responsável entendeu que a Anthropic podia legalmente usar obras protegidas para treinar seus modelos, mas a forma como obteve essas obras, via pirataria, era ilegal. Essa decisão criou um precedente que agora serve de base para a nova acusação.

A ação mais recente, apresentada por Sony Music Publishing e Warner Chappell, se apoia nesse precedente, mas vai além ao focar explicitamente no uso de torrents. Os advogados das editoras musicais afirmam que a Anthropic teria baixado ilegalmente milhões de cópias de livros, incluindo letras de músicas e partituras, para treinar o Claude. O laboratório de IA corre o risco de enfrentar consequências financeiras ainda maiores, caso a Justiça reconheça as alegações de pirataria flagrante.

Por que importa

A decisão no caso Bartz, que obrigou a Anthropic a pagar US$ 1,5 bilhão, mostrou que a prática de adquirir dados por meios ilegais tem um custo real. Já a nova ação, movida por Sony Music Publishing e Warner Chappell, pode definir até que ponto as empresas de IA podem usar conteúdo protegido sem autorização, mesmo que a finalidade seja a pesquisa. Para o setor musical, o processo é uma tentativa de proteger receitas de letras e partituras, que hoje circulam amplamente em bases de dados usadas por modelos de linguagem. Para a indústria de IA, o caso aumenta a pressão sobre a origem dos dados de treinamento, levantando a necessidade de acordos de licenciamento claros.

A ação contra a Anthropic, movida por editoras como Sony e Warner, pode afetar diretamente as práticas de outras empresas de tecnologia que usam dados de fontes questionáveis. Se a Justiça considerar que o uso de torrents configura pirataria, independentemente do propósito, companhias como a Anthropic terão que revisar suas cadeias de fornecimento de conteúdo. O valor potencial das indenizações, que podem superar os US$ 1,5 bilhão pagos no caso Bartz, coloca em risco a sustentabilidade financeira de startups de IA que dependem de grandes volumes de dados.

Impacto

A decisão do tribunal pode ter efeitos de curto e médio prazo. No curto prazo, a Anthropic pode precisar interromper temporariamente o treinamento do Claude ou alterar seus métodos de coleta de dados, o que atrasaria atualizações do modelo. No médio prazo, o caso pode incentivar acordos de licenciamento entre gravadoras e desenvolvedores de IA, como já ocorre em outras áreas de conteúdo. A Sony Music Publishing e a Warner Chappell, que juntas controlam um catálogo imenso de obras musicais, podem usar o processo como alavanca para exigir royalties pelo uso de suas letras e partituras em treinamentos futuros. A indústria musical, que perde bilhões com a pirataria tradicional, agora pressiona por compensação no campo da IA.

A ação contra a Anthropic, movida por grandes editoras musicais, também afeta outros laboratórios de IA, como OpenAI e Google, que usam dados obtidos de fontes semelhantes. O resultado deste processo pode criar um padrão jurídico que obrigue todas as empresas de IA a comprovar a legalidade de suas bases de dados. No Brasil, onde a discussão sobre direitos autorais em treinamento de IA ainda engatinha, a decisão americana pode servir de referência para futuras regulações e ações judiciais locais.

O que muda

Este processo é distinto por focar diretamente no uso de torrents como método de coleta, algo que não foi central nas ações anteriores. A acusação de "pirataria flagrante" contra a Anthropic, detalhada na petição, indica que as editoras pretendem mostrar que a empresa não apenas usou conteúdo sem autorização, mas o fez por meios ilegais em massa. Isso pode mudar a forma como os tribunais avaliam casos de propriedade intelectual envolvendo IA, separando a legalidade do uso de obras protegidas (aceita no caso Bartz) da legalidade da forma de obtenção dessas obras (não aceita). A decisão pode estabelecer que, mesmo que o uso seja considerado fair use, a pirataria não é tolerável.

A nova ação, movida por Sony Music Publishing e Warner Chappell, também amplia o escopo para incluir letras de músicas e partituras, que não eram o foco dos processos de autores literários. Isso pode levar a uma interpretação mais rígida sobre o que constitui uso justo em treinamento de IA, especialmente em obras com alto valor comercial, como músicas populares. Se a Justiça concordar com as editoras, a Anthropic poderá ser obrigada a pagar indenizações bilionárias e a licenciar todo o conteúdo usado no treinamento do Claude, criando um novo mercado de licenciamento para dados de IA.

O que vem agora

A Sony Music Publishing e a Warner Chappell pedirão, nos próximos meses, que o tribunal reconheça a violação de direitos autorais e conceda indenizações por danos, além de uma ordem judicial que impeça a Anthropic de continuar usando obras sem licença. A Anthropic, que ainda não se manifestou publicamente, pode tentar negociar um acordo para evitar um julgamento caro, como fez em outras disputas. O caso deve avançar pela fase de descoberta de provas, onde serão avaliados os logs de downloads e dados de treinamento da empresa. Especialistas jurídicos preveem que a decisão possa levar de um a dois anos, mas o precedente do caso Bartz, com US$ 1,5 bilhão em indenização, já indica o potencial de impacto financeiro para a Anthropic. Enquanto isso, outras editoras e detentores de direitos autorais podem se juntar ao processo ou abrir ações semelhantes, ampliando a pressão sobre a indústria de IA.